O telefone é o objeto mais visado ou temido quando temos um familiar internado

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Divulgação

Quando ouço notícias de sentenças de pena de morte nos noticiários, vivo alguns dias atônita. Não me atenho ao significado moral dessa medida punitiva, até porque trata-se de um debate para o qual não me sinto devidamente preparada. Por conta disso, por ora, as reflexões se ocupam dos rituais que antecedem o ato. A última refeição, as últimas palavras, a última chance de comunicação com o mundo.

Em contexto totalmente ao contrário, onde o empenho é desmedido para salvar vidas, acontecem cenas com alguma semelhança. Há alguns dias, li uma entrevista concedida por um médico de um grande hospital de Porto Alegre. Ele comentava sobre a hora em que o paciente acometido pela covid, antes de ser entubado, faz contato com a família. Imagino a dor dos familiares. Um sentimento que não cabe no peito. O telefone deve ser o objeto mais visado ou temido. A qualquer hora, poderão chegar boas notícias. “O quadro de saúde melhorou”. Contudo, cada toque do celular também faz o coração pular, de angústia.


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Diante de tanto sofrimento, é preciso que cada um de nós reflita sobre seus comportamento diante da propagação do vírus. Sempre que saímos sem máscara na rua, ou quando ignoramos medidas de prevenção, podemos ser responsáveis por essa dolorosa ligação que o médico referia na sua entrevista. Todos nós, descuidados e relapsos em relação às medidas preventivas, em alguma medida, impusemos pena de morte às pessoas que faleceram por causa da Covid. O contato com a família que, para alguns, significa um “até breve”, para outros, podem ser as últimas palavras.

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