Os atos fúnebres têm um lugar importante na elaboração do luto

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Ilustrativa / Pixabay

Faz umas duas semanas. Caminhava na calçada que fica no canteiro central da avenida Alberto Müller, no bairro Alto do Parque, quando levei um susto. Havia um gato morte deitado próximo ao cordão da calçada. Não tive nem coragem de olhar direito. Parecia ser um bichano peludo, bem possível, animal de estimação de alguma família, que talvez nem soubesse o seu paradeiro. Fui para casa com a cena diante de mim. Não quis providenciar o enterro justamente porque acreditei que, se estivessem procurando por ele, seria importante que o encontrassem, ainda que sem vida.


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Mais triste e dolorida do que a morte é a sensação de, depois do sumiço, não ter nenhuma notícia do ser amado. Estou falando de vida humana, contudo, vale para os bichinhos também. Imaginem o quanto sofre uma mãe quando não sabe se o filho morreu, se está confinado em algum lugar do mundo sofrendo torturas, ou se está internado num hospital, desacordado e sem identificação. O sofrimento se multiplica com o não sabido. A pessoa não se sente autorizada a viver o luto porque, enquanto o corpo não for localizado, ainda há esperança. Diante disso, vive-se dias e dias de sentimentos misturados, alimentando expectativas que não possuem nenhuma garantia de veracidade.

Nesse sentido, os rituais fúnebres cumprem um papel importante na elaboração da dor da perda. Esse processo pode ser diferente para a família que recebe um caixão lacrado, com orientação para encurtar e limitar o acesso ao velório, o que tem sido o protocolo de segurança nas mortes por Covid.

Os momentos diante do corpo sem vida permitem que a pessoa faça registros mentais de despedida do ente querido. E, assim, depois do sepultamento, não caberá mais nenhuma fantasia. Ainda que manco emocionalmente, seguir o fluxo da sua vida, podendo, pouco a pouco, elaborar o luto. Como escreveu Lya Luft, no livro O lado fatal, “(…) a melhor homenagem que se pode fazer a alguém que morreu é continuar vivendo da melhor forma possível.

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