Os pais devem ser sensíveis às potencialidades profissionais dos filhos

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: DAMIRCUDIC/GETTYIMAGES
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
 
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
 
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
 
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
 
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
 
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
 
O menino aprendeu a usar as palavras.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
 
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
 
São trechos do poema intitulado “O menino que carregava água na peneira” e foi escrito por Manuel de Barros. É um belíssimo texto que mostra o quanto os pais devem ser sensíveis às potencialidades dos filhos. Muitas vezes, eles possuem talento para uma profissão que não seria exatamente aquela que os pais escolheriam. Como então é importante reparar os filhos com ternura para que possam seguir seus sonhos, seus desejos.

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Lendo o poema lembrei-me de um conhecido meu formado em Medicina. Por muitos anos, atuou como neurocirurgião em Porto Alegre. Nesse meio tempo, estudou outra área e largou a carreira de médico para ser professor universitário. Se está mais feliz? Talvez sim, talvez não. A questão é que ele, assim como Manoel de Barros, decidiu ser poeta da sua própria vida. Aliás, Manoel de Barros é um dos mais aclamados poetas contemporâneos brasileiros. Nascido em Cuiabá em 1916, faleceu em 13 de novembro de 2014. Foi casado com a mineira Stella. Segundo dados biográficos, no começo do namoro, a família dela tinha preocupação com o relacionamento. Manoel era um rapaz cabeludo que vivia com um casaco enorme trazido de Nova York e sempre se esquecia de trazer dinheiro no bolso. Mas, naquela época, Stella, a namorada, já entendia a falta de senso prático do rapaz que tinha alma de poeta.
 

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