Os tolos morrem cedo

Ivete Kist comenta o livro “A vida começa aos 40, do psicólogo norte-americano Walter Pitkin


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Ivete Kist (Foto: Fernanda Kochhann)

O envelhecimento da população é um assunto frequente nos noticiários. O IBGE divulga a toda a hora dados novos a respeito. Eu mesma falei sobre isso, aqui, na semana passada. Há muito interesse em torno do assunto e não apenas pelo reflexo que tem na nossa vida particular. Acontece que o envelhecimento populacional tem amplo impacto. Repercute no ramo da medicina, da habitação, do vestuário, da educação, do entretenimento e sei lá onde mais.

Bom, mas hoje voltamos ao tema do envelhecimento na carona de um livro publicado no ano de 1932, há quase cem anos, portanto. O título do livro: “Life begins at forty”, ou seja, “A vida começa aos 40”. O autor era um psicólogo norte-americano chamado Walter Pitkin. É pouco provável que Pitkin imaginasse o sucesso que o título faria. O título virou uma frase popular em todo o mundo. Ao completar 40 anos, quase todos ouvem alguém dizer que a vida começa aos 40.

Quando o livro apareceu, em 1932, a frase causou sensação por razões diferentes do que se imagina hoje. Na época, dizer que a vida começava aos 40 parecia um belo exagero. A expectativa de vida vinha passando por uma revolução, isso era certo, mas não a ponto de permitir tal demasia. Para a gente se situar no tema, vale lembrar que na Idade Média ninguém esperava viver mais do que 25 anos. Em 1932, a expectativa de vida nos Estados Unidos andava perto dos 60 anos. Nos países mais atrasados, como o Brasil, passava pouco dos 40 anos.

O que Walter Pitkin queria dizer no seu livro era uma novidade. Ele afirmava que os anos finais podiam ser os melhores. O autor anunciava que essa fase era o filé mignon da vida. Aos 40, os compromissos familiares tinham diminuído e a maior parte das conquistas profissionais já estavam asseguradas. Enfim chegava a hora em que as pessoas ficavam mais livres para viver a seu gosto. A tese era de que agora começava a parte boa.

O interessante é que o livro de Walter Pitkin tinha uma ideia complementar a esta. Ele destacava outro ponto relevante. Dizia com todas as letras que “os tolos morrem cedo”. Só que esta segunda ideia não ganhou nem de longe fama igual à da primeira. Continuamos dizendo que a vida começa aos quarenta, e deixamos de acreditar que os tolos morrem cedo.
Por que Walter Pitkin disse que os tolos morrem cedo?

A intenção era enfatizar que havia tanto conhecimento sobre cuidados de saúde, havia tantas oportunidades de acesso à medicina preventiva, havia tantos recursos para evitar acidentes que era mesmo tolo quem não se cuidasse como poderia se cuidar. Para os tolos, a vida não começava aos quarenta. Eles morriam antes.

Ficam, então, duas perguntas:
– Primeira: será verdade que a última parte da vida pode ser a melhor de todas?
– Segunda: continua tendo cabimento dizer que os tolos morrem cedo?

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