Palavras nem sempre conseguem dar conta daquilo que sentimos

A jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing faz reflexões a partir do significado dos presentes e das lembranças especiais e diferenciadas


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Foto: Dirce Becker Delwing

Minha amiga apareceu na minha casa com um presente. Faz alguns anos, eu estava de aniversário. Quando abri o pacote, me deparei com um pires e uma xícara. Você pode pensar que ela foi a uma loja e comprou a louça, mas não se trata disso. Minha amiga estava me dando um pires e uma xícara usados. As peças faziam parte de um jogo de louças antigo que guardava, há muitos anos, na cristaleira da sua casa.

O cuidado especial com as porcelanas se justifica por serem objetos que pertenceram a antepassados da família. Nem sei dizer o que pensei na hora, mas o fato é que, até hoje, tento compreender por que alguém desmontaria o seu conjunto de louças para deixar duas peças com outra pessoa.

Não tenho dúvidas de que esse é um dos presentes mais significativos que já recebi na vida. Penso nisso todas as vezes em que me deparo com o mimo. Tenho a impressão de que minha amiga também lembra de mim sempre quando olha para a cristaleira. Deve ter sido o jeito que encontrou de perpetuar minha presença. Sigo presente na ausência, na falta, na incompletude da sua coleção de porcelanas.

Situação semelhante aconteceu na última segunda. Nossa colega Ivete Kist veio ao Sala de Espera e tirou da bolsa uma tesoura. Explicou que estava na loja de um amigo que temos em comum quando falaram sobre o tema do programa daquela noite: tesouras. Lá pelas tantas, ele teria tirado o objeto da gaveta e teria dito que seria para mim.

– É um presente, tenho duas.

Foto: Dirce Becker Delwing

Fiquei depois pensando que o gesto do meu amigo se assemelha à sacolinha que preparo quando meu filho levanta para ir embora depois do almoço de domingo. Um pouco de sopa, um vidro de conserva, um pote de feijão com arroz. Vou recolhendo o que encontro pela frente para mandar junto, mesmo que ele diga que não precisa.

Feito meu amigo, justifico que cozinhei a mais. Tenho a impressão de que a gente faz isso porque quer prolongar a companhia. Desejamos seguir perto mesmo quando estamos ausentes por amor, pelo desejo de querer ser lembrado, ou ainda para perpetuar as funções de cuidado e proteção.

Texto por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica


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