Para fincar os pés no presente é importante fechar ciclos e abandonar velhas dores

Se algo está lhe incomodando, o primeiro passo é fazer uma avaliação daquilo que parece não estar bem.


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Sempre quando eu entrava na varanda da minha casa, algo dentro de mim parecia me beliscar. Um incômodo que estava deixando meu mundo interno desajeitado. Passei dias assim. Mudei móveis de lugar. Restaurei decorações e até falei para meu esposo que talvez o espaço precisasse de alguma reforma, uma pintura na parede, quem sabe. Fui fazendo movimentos brandos. Não tinha certeza da origem do meu mal-estar. Numa hora dessas, é de fundamental importância analisar bem cada detalhe para não cometer um equívoco, gerando mais desconforto ainda.


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Se algo está lhe incomodando, o primeiro passo é fazer uma avaliação daquilo que parece não estar bem. Você sabe do onde vem o seu sofrimento? Onde estão suas feridas? Onde belisca? Reflita um pouco sobre qual sentimento pode estar dentro do incômodo. Você sente dor, tristeza, raiva? Foi agindo assim que eliminei, um a um, os possíveis motivos. Até que, de repente, enxerguei a dor na minha frente, deixando claro que dor não significa amargura.

Foi difícil reconhecer que, justamente, o objeto mais querido do lugar, escancarava memórias doloridas em mim. Um quadro com uma pintura em óleo sobre tela. Acontece que, por um período da minha vida, frequentei uma oficina de pintura, ocasião em que pintei dois quadros e que dei de presente aos meus pais. Um deles, esse da minha varanda, ficou por mais de dez anos na sala principal da casa e, assim, testemunhou os mais diversos sofrimentos advindos da doença e morte dos meus velhos. Agora, afixado em outra parede, parecia muito mais uma tela de TV mostrando, em tempo real, vivências passadas que não desejo ter na minha frente todos os dias. Nesse sentido, outra pergunta que a gente deve se fazer: preciso seguir sentindo esse incômodo? Tenho possibilidades de mudar o cenário? Não tive dúvidas. Tirei o quadro do lugar e passei adiante. Afinal, quando visto sem memória afetiva, dá até para dizer que é uma bela obra de arte.

Tudo passa e é preciso desapegar!, dizia Paulo Coelho. Isso vale inclusive para sofrimentos do passado. A serviço de que tu precisas alimentar memórias que não te fazem bem? O importante é fechar ciclos e deixar ir embora aquilo que nos incomodou, o que também vale para mágoas e ressentimentos.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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