Para identificar sabedorias nos outros é preciso estar livre de preconceitos

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Ilustrativa / Divulgação

Todas as pessoas têm algo a nos ensinar. Basta termos um olhar atento diante das suas singularidades. E isso pode ser percebido em diferentes situações. Foi assim que gravei a imagem daquela mulher que, com um jeito intenso, para não dizer de raiva, esfregava o azulejo do banheiro. Eu havia contratado uma diarista de agência. Era a primeira vez que vinha na minha casa. Também a única. Não é que não gostei do resultado. Muito pelo contrário. No entanto, durante o tempo em que estive com ela, tive a impressão de que não gostava de fazer o serviço. Parecia braba. Ou, quem sabe, a questão era minha. Eu que não sabia lidar com seu jeito duro de ser.

No final do turno, enquanto esperava o motorista da agência, fiquei com a mulher na frente de casa. Perguntei algumas coisas. Falou pouco. Parecia desconfiada. Nunca mais a vi, mas penso nela muitas vezes. Ontem, inclusive. Estava lavando uma panela suja de gordura e considerei deixá-la de molho. Porém, na mesma hora, decidi que poderia esfregá-la com vontade feito a mulher quando limpou os azulejos. Pensando bem, até hoje ela merece créditos na organização da minha casa e na forma como realizo serviços domésticos. Porque ela está comigo quando esfrego a sola do tênis, na hora de tirar uma mancha do pano de prato, ou até mesmo se faço corpo mole para varrer a calçada. Penso nela muitas vezes.

Aquela mulher tinha uma dor por dentro. Tão grande que vazava. Dava para ver sem esforço. Aquela mulher doeu em mim. Aquela mulher devia ter energia acumulada pelas vezes em que não foi capaz de reagir diante de uma maldade. Aquela mulher carregava uma sabedoria da qual nem ela mesma se dava conta. Era capaz de transformar o sofrimento em resultado positivo, muito embora fosse de um jeito meio torto. Porque a faxina daquela mulher ficara um brinco. E, ainda por cima, ela mostrou que é preciso ter vontade, garra e força nas mãos para alterar qualquer contexto encardido.

Aquele mulher é testemunha viva de que todas as pessoas podem nos ensinar algo, ou mesmo deixar sua presença na nossa memória. De forma semelhante, todos nós temos virtudes, valores e comportamentos que podem ser uma lição para aqueles que convivem conosco. Para ensinar e para aprender, é necessário se despir de preconceitos das mais diversas ordens. Esses danados, os preconceitos, ofuscam a luz de tantas boas coisas que poderiam compor a nossa existência.


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