Para onde estão indo os abraços que precisamos recolher quando nos aproximamos de pessoas queridas?

Dirce Becker Delwing analisa o filme “O Homem das Multidões”, que tem seu roteiro baseado num conto de Edgar Allan Poe


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Cena do filme "O Homem das Multidões" (Foto: Divulgação)

Neste final de semana, assisti ao filme “O Homem das Multidões”, que tem seu roteiro baseado num conto de Edgar Allan Poe, poeta e crítico literário estadunidense. As cenas, em sua maioria, acontecem no metrô de Belo Horizonte. O protagonista é um maquinista de trem chamado Juvenal. Ele quase não fala, apenas faz gestos com a cabeça e passa o dia quieto, observando tudo que acontece ao redor de si. Seu relacionamento com os colegas se resume a poucas palavras.


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Em casa, enquanto realiza afazeres domésticos, de quando em quando, repete pensamentos avulsos. Fala sozinho como quem deseja elaborar questões existenciais. Sua rotina é sempre a mesma e nada de diferente acontece até o dia em que sua colega de trabalho lhe convida para ser padrinho de casamento. Juvenal não aceita de imediato. Margô então explica que conheceu o futuro marido pela internet. Se Juvenal não aceitar o convite, ela não terá nenhuma outra pessoa mais “íntima” para convidar.

O enredo prossegue nesse ritmo, misturando melancolia e apreensão para contar a história desses personagens que, em alguma medida, a gente reconhece dentro de si, especialmente nos dias de hoje. A rotina sem novidades de Juvenal pode ser pensada como a nossa agenda diária. Cumprimos nossas atividades profissionais sem a possibilidade de vivenciar momentos de convívio, de interação e de afeto.

Para onde estão indo os abraços que precisamos recolher quando nos aproximamos de pessoas queridas? Acredito que, diante de tantas inquietudes, é tempo de viver um dia de cada vez. Da melhor forma que cada um conseguir. “O homem das multidões”, filme brasileiro de pouquíssimas palavras que grita dentro da gente.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista política 

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