Pesca ilegal de peixe ‘cocaína do mar’ ameaça espécie rara e causa conflitos no México

A pesca ilegal de totoaba, peixe conhecido como 'cocaína do mar' por causa de seu lucrativo mercado na tradicional medicina chinesa, causou uma série de problemas na costa mexicana: conflitos entre ambientalistas e pescadores e risco de extinção de duas espécies marinhas


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A vaquita é um dos animais marinhos com maior risco de extinção (Foto: Greenpeace/Marcelo Otero/BB)

O explorador Jacques Cousteau certa vez disse que o Golfo da Califórnia, também conhecido como mar de Cortez, no noroeste do México, é “o aquário do mundo”.

Um de seus tesouros é a vaquita, uma toninha prateada com grandes olhos. Mas seus dias podem estar contados por causa da pesca ilegal de outra espécie protegida: a totoaba.

A totoaba é um grande peixe que, antes de entrar na lista de espécies ameaçadas de extinção no México, era usado principalmente para a alimentação.

“Nós a pescamos desde as décadas de 60 e 70”, lembra Ramón Franco Díaz, presidente de uma federação de pescadores da cidade costeira de San Felipe, na península mexicana de Baixa Califórnia.

“Então os chineses vieram com suas malas cheias de dólares e compraram nossas consciências”, afirma.

Os asiáticos foram ao local em busca da bexiga natatória da totoaba, um órgão que ajuda os peixes a se manterem flutuantes. Na China, ela é muito valiosa por causa de propriedades medicinais nunca comprovadas cientificamente.

De acordo com a ONG Earth League International, um quilo de bexigas natatórias secas, de 10 anos de idade, podem ser vendidas por U$ 85 mil (cerca de R$ 448 mil) na China. Os pescadores de San Felipe ganham apenas uma pequena fração desse montante, mas, como a comunidade é pobre, o negócio floresceu.

Na região, o caráter lucrativo e ilegal da pesca de totoabas fez com que o animal ficasse conhecido pejorativamente como “cocaína do mar”.

“Os pescadores ilegais podem ser vistos em plena luz do dia com suas redes ilegais e também totoabas”, diz Franco Díaz.

‘Parede subaquática’

Todas as tardes durante a temporada, vans rebocando barcos de pesca descem uma rampa na praia pública da cidade.

A maioria dessas embarcações não é licenciada. Para retirar a totoaba, os pescadores utilizam redes que podem matar também a vaquita.

“As redes de emalhar podem ter centenas de metros de comprimento e 10 metros de altura”, diz Valeria Towns, que trabalha na ONG mexicana Museo de la Ballena. “As redes se tornam uma parede debaixo d’água”, diz ele.

Para proteger a vaquita, este tipo de rede de emalhar é proibido na parte alta do Golfo. No entanto, continuam amplamente utilizados, mesmo por pescadores com permissão para pescar pregado ou camarão.

O maior risco para a vaquita marinha são justamente as grandes redes utilizadas para pescar a totoaba. “Não é fácil para os mamíferos marinhos se livrar das redes, a vaquita fica presa”, diz Towns.

Ao largo da costa de San Felipe, todo tipo de pesca comercial é proibida no Refúgio de Proteção da Vaquita Marinha, uma área de mais de 1.800 quilômetros quadrados.

A ONG apoia um grupo de pescadores interessados ​​em acabar com a dependência das redes de emalhar e patrocina alternativas à pesca, como a criação de ostras.

A Museo de la Ballena também é uma das entidades que retiram redes de emalhar da área protegida. A atividade, porém, fez aumentar as tensões entre moradores e conservacionistas.

Em 31 de dezembro de 2020, um pescador morreu e outro ficou gravemente ferido depois que seu barco de pesca colidiu com uma embarcação maior pertencente à ONG internacional Sea Shepherd, que estava removendo redes de emalhar do local.

Os fatos são polêmicos, mas o resultado foi um tumulto em San Felipe, onde o navio da ONG Museo de la Ballena atraca.

“Eles iam queimar nosso navio”, diz Towns, que estava no mar na época, testando redes próprias para vaquitas.

“Quando voltei, outros pescadores que trabalhavam com as redes alternativas estavam defendendo nosso barco. Eles gritavam: ‘Eles não são seus inimigos! Não queimem o barco'”, conta.

O navio foi salvo, embora tenha ficado com algumas janelas quebradas. A Marinha mexicana não teve tanta sorte, pois um de seus barcos-patrulha foi incendiado no porto.

Por ora, a situação é mais tranquila.

A Marinha diz que continua patrulhando e removendo as redes do santuário. E são poucas as ONGs envolvidas: o Museo de la Ballena aguarda autorização para retomar as atividades, e o navio da Sea Shepherd nunca mais voltou a San Felipe após o incidente.

Fonte: G1

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