Pessoas com vivências semelhantes às nossas são capazes de nos encorajar diante das dificuldades

Bem sabemos que a companhia de outras pessoas, com vivências semelhantes às nossas, nos ajuda a enfrentar desafios cotidianos, nos encoraja e fortalece


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Foto: Ilustrativa

Na comunidade onde cresci, havia duas crianças com estrabismo. Eu era uma delas. Naquele tempo não existiam grupos de apoio, muito menos qualquer atividade social de esclarecimento ou de inclusão social. Como teria sido acolhedor se nossos pais tivessem tido a oportunidade de receber informações acerca desse distúrbio visual. À época, pouco se falava sobre o assunto em abordagens públicas. Com isso, o preconceito diante da deficiência não era repensado socialmente.

Hoje, para os mais diversos temas, há manifestações, publicações e convocações da sociedade vidando o acolhimento de cada pessoa dentro da sua singularidade. Um exemplo de tal ordem é o livro escrito pelo jornalista Luiz Fernando Vianna, intitulado “Meu menino vadio”, obra publicada pela editora Intrínseca, em 2017. Pai de Henrique, hoje um adolescente, ele fala de medos, equívocos e inseguranças, da carga pesada e olhares enviesados com os quais é obrigado a lidar desde que recebeu o rótulo “pai de autista”.

“Pai de autista sofre um bocado. No entanto, ama demais também. Em silêncio, gritando ou escrevendo, ofereço minha dor e meu amor para os que estão de braços abertos para aceitar meu filho”.

Num outro trecho, ele diz: “O fato de um pai desejar que o filho não tivesse transtorno e até sonhar com a cura não quer dizer que ele não ame o filho. Lidar com o autismo é extremamente cansativo. E o amor também cansa.”

O texto pode parecer chocante, mas é muito verdadeiro e honesto. “Diante dos olhares estranhos de quem vê nossos filhos como mal-educados, temos reações variadas: ignoramos, damos um sorriso amarelo, fazemos cara feia ou partimos para cima. Tudo depende do momento, do humor. Ao menos comigo é assim, e não deve ser muito diferente com outros que passam por isso”.

Dentro desse tema, ontem à noite, na companhia dos músicos Nando Rosa e Diogo Mallmann, estive em Arroio do Meio, na Escola São Caetano, onde fizemos uma palestra show para pais de crianças com autismo. O evento foi uma iniciativa da Ong Coração Azul, criada recentemente para acolher famílias de autistas. Um movimento muito importante para que as famílias possam compartilhar suas angústias, seus receios, seus avanços e suas conquistas. Bem sabemos que a companhia de outras pessoas, com vivências semelhantes às nossas, nos ajuda a enfrentar desafios cotidianos, nos encoraja e fortalece.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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