Por que repetimos atitudes que não gostávamos de ver nos nossos pais?

"Para a Psicanálise, existe uma parte de nós mesmos que não temos domínio e nem controle: o inconsciente." Explica a jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Ilustrativa / aifs.gov.au

Por muitos anos, acompanhei minha mãe a consultas médicas. Ela tinha uma mania de guardar os resultados de exames de laboratório, exames de imagem e receitas médicas numa sacola de papel. Embalagem que devia ter recebido numa compra, ou que talvez tivesse ganho de alguém. Um dia me dei conta de que ela usava a mesma sacola de papel há anos. Nem sei o motivo, mas eu senti um incômodo.

Dias depois, comprei para ela uma bolsa charmosa, de cor lilás, para servir como uma espécie de porta-documentos de saúde. Acreditei que ela iria acatar minha sugestão, contudo, alguns meses depois, lá estava a mãe me esperando num consultório médico tendo consigo a sua sacola de papel. Depois disso, eu não disse mais nada. Pensei que devia ser uma mania esquisita que, por alguma razão, ela desejava preservar.

Outro dia, enquanto caminhava até a empresa na qual eu tenho plano de saúde, me dei conta de que eu também estou guardando meus documentos numa sacola de papel. Estou repetindo a minha mãe. Por que repito? Talvez eu deseje a aprovação materna, talvez eu tenha entendido que, se repetir a mãe, tenho alguma garantia de boa saúde. São repetições das mais diversas ordens que fazemos na vida. Repetimos manias, comportamentos e atrapalhos que aconteceram na nossa família, na relação que tivemos com nossos pais, com as pessoas do nosso convívio, especialmente na primeira década de vida.

A sacola de papel pode não me gerar sofrimentos, embora eu tenha me dado conta da repetição. Posso seguir com esse hábito se eu entender que não me incomoda. A questão é que também repetimos erros, escolhemos caminhos, repetimos atitudes que podem gerar sofrimentos, não apenas para nós, mas também para os outros. Nesse caso, um terapeuta, um analista, um psicólogo pode ser muito importante. Esse profissional vai ajudar a pessoa a perceber suas repetições, suas escolhas marcadas pelos mesmos erros. Isso possibilita reconhecer como é possível mudar, o que é necessário fazer para quebrar esse ciclo de repetições.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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