Por que ser flagrado com meleca no nariz é motivo de constrangimento?

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica, Dirce Becker Delwing


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Foto: Divulgação / Ilustrativa

Você admira a pessoa nos mais diversos aspectos. Ela é bonita, competente, fluente e adorável. Quando você tem um encontro com uma criatura assim, bem possível, dá uma caprichada na aparência, inclusive ensaia respostas para assuntos que poderão ser abordados. Afinal, você quer causar boa impressão. Por vaidade, por desejar ser admirado também, para manter ou ampliar sua rede de contatos.

No elevador, se você tiver sorte, poderá fazer as últimas checagens no espelho para ir ao compromisso com segurança. Tudo transcorre melhor do que o esperado. Você considera que causou boa impressão e sai tranquilo. Contudo, ao entrar no carro, resolve checar sua fisionomia no espelho retrovisor e, nessa hora, você fica indignado. Você está com uma meleca no nariz. Você se sente humilhado e constrangido como se fosse uma criança grande com as fraldas sujas. Não há mais o que fazer. O vexame já teve plateia, inclusive com a tal pessoa admirável sentada na primeira fila. Mas, por que ser flagrado com uma sujeira no nariz pode ser tão constrangedor? O que a secreção nasal pode significar para nós? Por que exibi-la para outros seria tão desagradável?

Aliás, li que a cantora Anitta teve uma foto amplamente divulgada entre seus seguidores onde parece estar com um tatu à mostra. Das análises que faço está o fato de termos sido repreendidos na infância quando fomos flagrados cutucando o nariz, ou até mesmo comendo o próprio ranho. E vejam só: se diziam pra gente que isso poderia render algumas lombrigas, há um estudo que mostra o contrário.

Os pesquisadores canadenses Scott Napper e Friedrich Bischinger defendem a ideia de que o muco nasal é uma espécie de vacina “natural e gratuita” para nosso organismo, uma vez que nele contém porções pequenas de vírus, germes e bactérias. Ou seja, seria uma possibilidade de criar anticorpos. Verdade ou não, melhor acreditar na versão dos parasitas.

É interessante pensar na forma como somos educados para lidar com outras manifestações naturais do nosso corpo. Por que ficamos constrangidos quando, no meio de uma reunião, a nossa barriga começa a fazer barulhos? Por que morremos de vergonha se um pum escapa diante de alguém? Por que ficamos incomodados se temos soluço, se arrotamos alto sem querer, se bocejamos, ou se roncamos?

O incômodo seria porque descumprimos, ainda que de forma involuntária, as orientações de bons modos? Ou a vergonha teria a ver com a ausência de controle acerca das produções do nosso organismo, o que nos remeteria a um estágio infantil do qual todos nós lutamos para sair, com um pezinho querendo ficar?

É incômodo pensar que a gente não seria capaz de cuidar de si, das coisas mais básicas que têm a ver com o que o nosso corpo produz. Algo como um retorno ao estágio infantil, onde o cuidado necessitava do auxílio de um adulto. Pensando assim, esse mal-estar pode estar relacionado com o nosso mundo psíquico, considerando a infância sob um olhar da Psicanálise.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica.

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