Professor de relações internacionais analisa as implicações do retorno do Talibã ao poder no Afeganistão

Mateus Dalmáz recorda contexto geopolítico de Guerra Fria nas relações de poder na origem do Talibã e o apoio americano às milícias tribais afegãs contra a União Soviética


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Foto: Divulgação

O professor de história e relações internacionais Mateus Dalmáz fez uma análise geopolítica da crise no Afeganistão com a saída das tropas americanas do país após 20 anos de ocupação e a tomada de poder pelo grupo radical islâmico Talibã. Dalmáz ressaltou que essa é uma história com muitos capítulos, e recordou que a sua origem remonta à Guerra Fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética. Naquele contexto, na final da década de 1970, o Afeganistão era um teatro de operações politicas estratégico.


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Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão para dar suporte ao governo comunista local. No mesmo ano, houve a revolução islâmica no Irã, que deixou de ter um governo aliado ao ocidente e tornou-se um regime dos aiatolás xiitas.

Até então, soviéticos e americanos coexistiam em um delicado equilíbrio de poder. Mas com a realidade no Oriente Médio se alterando rapidamente, os EUA ficaram sem aliados no Irã, no Iraque e no Afeganistão, na órbita soviética. A saída americana foi apoiar milícias armadas no Afeganistão, entre elas a que daria origem ao Talibã mais tarde.

No início dos anos 1990, a União Soviética ruiu, a Guerra Fria acabou e o governo afegão, então alvo de disputa tribais em uma guerra civil, caiu nas mãos do Talibã, que significa “estudantes de religião”, um grupo extremista originário da maior etnia afegã (os pachtuns). O governo talibã foi marcado por uma aplicação extremamente radical do islamismo, com autoritarismo e abusos sobre a sociedade civil, principalmente as mulheres.

Professor de história e relações internacionais Mateus Dalmáz (Foto: Divulgação)

O professor Mateus Dalmáz lembra que, apesar do incômodo, essa prática não era um problema prioritário para a comunidade internacional. A conjuntura se alterou com o atentado terrorista às Torres Gêmeas em Nova York. Os EUA reagiram e lançaram um ultimado ao Talibã, que dava suporte e treinamento à Al-Qaeda de Osama Bin Laden, para entregar o mandante do ataque.

Como não fizeram, os americanos interviram militarmente e afastaram do governo os talibãs e instalaram no palácio presidencial governos pró-Ocidente.

Ao longo dos anos, a Guerra do Afeganistão, altamente custosa os americanos, foi se tornando impopular. O apoio à retirada das tropas tinha apoio bipartidário e foi acordado no ano passado pelo então presidente Donald Trump. Seu sucessor, Joe Biden, deu seguimento. Porém, o staff de Biden não esperavam que o governo afegão caísse tão rapidamente, sem reação. E a forma como os americanos saíram, deixando para trás aliados afegãos que ajudaram os americanos em duas décadas pegou mal. O noticiário internacional comprou o discurso de abandono sem suporte, ressalta Dalmáz.

Acoado, Biden fez um discurso nessa segunda-feira (16) voltado para o público doméstico que soou como “lavar as mãos” e um “não temos nada a ver com isso”, “o Afeganistão que se vire”, explica o professor.

Nesse realinhamento no Oriente Médio, a China busca tirar proveito e já acena ao Talibã. Para o estudioso de relações internacionais, isso mostra que o tema de direitos humanos é relativo: só é tratado como bandeira prioritária se contribuir para aumentar o poder da parte interessa.

Texto: Tiago Silva
web@independente.com.br

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