Psicólogo pode atender conhecidos ou amigos próximos?

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Shutterstock

Outro dia, uma acadêmica de Psicologia me entrevistou para um trabalho da faculdade. Numa das perguntas eu devia referir uma situação em que me encontrei num dilema ético. Fiquei então pensando que, bem possível, os maiores desafios não têm a ver com ética profissional, mas com decisões cotidianas na hora em que as pessoas nos procuram para agendar atendimento. Isso porque a conduta prevista no código de ética da profissão não é de ordem afetiva.

Nesse caso, existe o certo e o errado, o permitido e o não permitido. Basta seguir as normas que você se resguarda de qualquer encrenca, punição ou mesmo cassação do seu registro. Porém, existem demandas em que o profissional deve decidir a partir do seu próprio entendimento.

Um desses momentos acontece quando um familiar, amigo ou conhecido seu lhe procura para ser seu paciente. Se você decidir que irá atendê-lo, a relação de vocês mudará. A começar porque você precisará cobrar pelo seu trabalho. Você também não falará mais sobre você, diferente do que acontece numa relação de amigos, ou mesmo de conhecidos.

Quase sempre quando contamos algo para um amigo, esperamos que ele abra o seu coração também. Como já escreveu Freud, uma confidência merece outra e todo aquele que exige intimidade de outra pessoa deve estar preparado para retribuí-la. Isso coloca as duas pessoas em pé de igualdade, o que não seria saudável num percurso terapêutico.

Durante o tratamento terapêutico é comum a aparição de um sintoma chamado de “transferência”. O paciente dirige ao terapeuta diversos sentimentos que misturam fantasias, hostilidade e afeto. No caso de você estar diante de um familiar, amigo ou conhecido, isso poderia desencadear algum mal-estar por parte do paciente.

Considerando tais questões, você então decide não atender essa pessoa que lhe procurou. Nessa hora, é preciso lidar com uma possível chateação, afinal, ela depositou confiança na sua capacidade de ajudá-la no caminho da melhora ou da cura.

Você também estará às voltas com as suas próprias vaidades intelectuais, compreendendo que, por mais competente que você seja, talvez deva recomendar que a pessoa procure um outro profissional, que, inclusive, você poderá recomendar. Aliás, essa é uma prática comum nessa área. A maioria dos pacientes que a gente recebe nos consultórios chega até nós por indicação de colegas psicólogos ou de pacientes nossos.

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