Quais afetos marcam a hora do almoço na sua família?

Confira o comentário de Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica


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Foto: Ilustrativa / Pixabay

Estive doente na semana passada. Teve um dia em que mal consegui fazer o almoço. Percebi que não estava nada bem quando coloquei a comida na mesa e vi que não tinha nenhum tempero na batatinha. É raro ter um dia em que não invento um prato que contenha batata inglesa. Vou variando os condimentos e a forma de preparo. Contudo, naquele meio-dia, a batatinha figurava no cardápio sem qualquer capricho culinário. Fervida na água e temperada com sal.

Pra explicar melhor, dando mais um exemplo, depois do almoço, meu esposo recolheu as panelas e as colocou sobre o fogão. Sim, eu não havia tirado nada das panelas. Também não servi as sobras em recipientes para guardar na geladeira. Antes da noite, com a fome batendo à porta, fui até a cozinha e vi a panela com as batatas fervidas. Estavam com um aspecto que lembrava a comida da minha mãe. Sem geladeira em casa, depois do almoço, ela colocava os restos na despensa para servir como janta. Muitas vezes, no meio da tarde, as batatinhas cozidas acabavam sendo meu lanche. Também era uma forma de sentir o carinho materno. Tenho certeza que, muitas vezes, faltavam ingredientes, mas ela dava um jeito de deixar tudo delicioso.

Por esses anos todos, lembrava vagamente dessas ocasiões, mas, na semana passada, aquela comida fora da geladeira trouxe de volta o gosto das batatinhas que eu comia na infância. Não podia ser aconchego melhor para quem não estava se sentindo bem. Aquelas batatinhas cozidas eram um abraço por dentro, um chá de mãe, um beijo na testa, costume que ela tinha para averiguar se a gente estava com febre.

Fiquei depois pensando na capacidade que temos de criar memórias afetivas. Momentos que nos enchem de energia e de lembranças deliciosas. Por outro lado, se não nos dermos conta disso, com a mesma intensidade, podemos criar um repertório de chateações.

Que registros seu companheiro, sua companheira guarda de você no mais íntimo do seu coração? Como você marca os momentos especais da sua família? Nas viagens de carro, vocês ouvem música? Conversam sobre temas gostosos ou puxam assuntos que deixam o clima pesado? Como são os almoços? Há harmonia ou é hora de lavar roupa suja? Quais são as reflexões que mais acontecem no quarto do casal? Que memórias seus filhos irão buscar na hora do aperto, na vida adulta? Terão eles também sabores afetuosos para resgatar diante das solidões da existência?

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