Qual foi a melhor palavra que você já ouviu na vida?

Confira o comentário de Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica


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Foto: Ilustrativa / Divulgação

Somos feitos de palavras. Frases que ouvimos na infância, seguem conosco pela vida afora. Repetimos dizeres e colocamos em ato adjetivos que nos foram atribuídos na mais tenra idade. Precisamos de palavras para continuar a ser, escreveu José Saramago. Nem sempre, as palavras foram boas. Pode ocorrer de termos acolhido letras que estavam tomadas de agressão, de raiva e de desencorajamento. É por isso que dores da vida de gente grande sempre visitam sofrimentos antigos, vivências que deixaram marcas em nós. Ah, se os adultos escovassem as palavras antes de dirigi-las às crianças. Seria uma forma de lapidar os excessos para deixar as palavras com capacidade de potencializar o que há de melhor em cada ser. A expressão “escovar palavras” tomei emprestada de Manoel de Barros, no poema que destaco a seguir.

” Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.”

Manoel de Barros – foi um dos grandes poetas brasileiros do século XX. Nasceu em Cuiabá. Viveu de 1916 a 2014. O poema “Escova” está no livro “Memórias iventadas: a infância”.

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