Quem sempre almeja ter todos os seus desejos satisfeitos pode entrar numa rotina de frustrações

Leia e ouça o comentário da psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Ilustrativa

Quando eu era criança, meus pais, volta e meia, repetiam o antigo dito popular “É melhor ter uma pomba na mão do que duas voando”. Falavam isso quando presenciavam situações em que meu mano e eu não ficávamos satisfeitos com aquilo que tínhamos recebido e, então, fazíamos planos para o futuro, quando chegaríamos ao ideal almejado. As insatisfações ou desejos de ter justamente aquilo que não tínhamos iam desde um material escolar, uma espiga de milho que era servida e que não estava tão robusta, a uma roupa que a gente ganhava e não queria vestir porque achava que não estava adequada ao nosso gosto. Com esse dito popular, meus pais explicavam que, tantas vezes nesta vida, não teremos exatamente aquilo que queremos, e, que, se não for possível alterar a situação, devemos nos contentar com o que está nas nossas mãos.


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Lembrei, outro dia, de tais ocorrências da infância quando observei meus cachorros, a Sofia, uma vira lata charmosa com olhar de pessoa, e o Dudu, um pequinês lindo e fofo, mas que passa longe de qualquer etiqueta porque faz xixi em todos os lugares onde quer deixar o seu registro. Acontece que quando dou uma comida diferente para eles, sempre reparto bem certinho, na mesma proporção para cada um. A Sofia analisa, cheira e não come. Volta a olhar para mim com olhos esperançosos. Parece que supõe que eu jogaria um outro alimento ainda mais saboroso. Nesse meio tempo, o Dudu também come o lanche dela. Coisas de quem não está satisfeito com aquilo que recebeu e que, por ficar buscando a completude, acaba sem nada.

Este exemplo pode ser aplicado à nossa vida. Há pessoas que nunca se contentam com nada. O mais sério é quando traduzem tal comportamento para a vida afetiva e, assim, passam a vida fazendo e desfazendo relações porque acreditam que o melhor ainda está por vir. A mulher perfeita, o homem perfeito, ou, pensando no trabalho, o emprego perfeito. E isso pode ser uma aspiração que nunca será efetivamente concretizada.

Dirce Becker Delwing, psicóloga e psicanalista clínica

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