Reclamamos para dizer que sofremos mais do que os outros

"Num momento em que todos estão na mesma canoa furada, ninguém consegue prestar atenção no medo que o outro tem de se afogar"


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Foto: Divulgação / Ilustrativa

Nossas queixas desejam espectadores. Quando nos queixamos queremos gerar compaixão no outro, naquele que está diante de nós. E isso começa na mais tenra idade. A criança chora e, quando percebe que está sozinha, por vezes, até diminui a intensidade do choro. Quando lamentamos nossas dores, sofrimentos e faltas de sorte queremos que o outro tenha empatia por nós, que, naquele momento, esqueça das suas próprias mazelas. Acontece que nem sempre é fácil lidar com as reclamações alheias. Isso exige, antes de tudo, que você deixe de olhar para si e se disponha a escutar o outro.


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Há aquela pessoa que, ao invés de dar crédito àquilo que o outro diz, começa a dizer que já teve sofrimento de maior intensidade. Com isso, ela acredita que consegue neutralizar a dor do outro, é como se ele tivesse que se conformar diante daquilo que está sentindo porque, afinal, o outro já sentiu coisa pior. Contudo, me diga você se não é extremamente confortável ser acolhido quando você não está bem? A principal coisa que você quer é ter plateia para lhe fazer companhia. O outro não precisa dizer nada. Basta que olhe para dentro dos seus olhos com respeito e que, vez por outra, faça “sim” com a cabeça para sinalizar que está “todo ouvidos” diante da necessidade que você tem de traduzir em palavras aquilo que dói.

O escritor Fabrício Carpinejar tem um texto muito interessante que está no livro intitulado “Colo, por favor! – Reflexões em tempos de pandemia”. Em outras palavras, ele diz que, num momento em que todos estão na mesma canoa furada, ninguém consegue prestar atenção no medo que o outro tem de se afogar. E aconselha: “Não entre na gincana das queixas, no concurso das perdas, para tentar algum privilégio, para chamar atenção, para se destacar como uma exceção mais grave no meio da tristeza, para obter preferência na fila de tragédias”. (p.115)

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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