Reflexos da pandemia: candidatos chegam a esperar mais de 120 dias para realizarem prova de direção

Antigamente, sem a obrigatoriedade das aulas, processo era concluído em menos de 24h


0
Foto: Artur Dullius

Tirar a Carteira Nacional de Habilitação tem exigido calma e persistência dos candidatos. O processo, que antes levava menos de 24h, chega a se estender por mais de seis meses. Além da ampliação da carga horária exigida, o período de pandemia tem contribuído para atrasar a formação.

Proprietário do CFC Vitória e ex-instrutor de trânsito, Victor Machry, lembrou de quando tirou a carteira de motorista, em julho de 1982, para destacar a evolução ao longo dos anos. Segundo ele, depois de procurar o despachante pela manhã e realizar o exame psicológico na Delegacia, os candidatos passavam pelo exame médico em um consultório. Logo em seguida, respondiam ao teste teórico, composto por dez questões e, se aprovados, já faziam a prova prática no turno da tarde.


ouça a reportagem 


 

“Se tu fosse um dos primeiros a fazer a prova, no final do dia já estava com o documento na mão. O processo era muito rápido nesta época. Lembro que minha prova foi bem tranquila. Não tive que arrancar no morro do Expresso Azul, que era o famoso reprovador de alunos na época”, lembra.

Conforme Machry, o processo de habilitação sofreu grandes modificações em julho de 1997, com a criação do novo Detran e a entrada do novo Código de Trânsito Brasileiro. De 1997 até 2005, o processo de formação passou a ser composto de 20 aulas teórica e 15 práticas. A partir de 2006, a carga horária aumentou para 30 aulas teóricas e 20 práticas. Já no atual formato, são 45 aulas teóricas e 25 práticas, sendo cinco no simulador e as outras 20 no veículo.

Proprietário do CFC Vitória e ex-instrutor de trânsito, Victor Machry (Foto: Artur Dullius)

“Antigamente a aula não era obrigatória. Chegávamos lá com o carro, a moto ou o caminhão da gente, mesmo sem ter carteira, e ninguém falava nada. Hoje, se por ventura o examinador desconfiar que o aluno veio dirigindo, não faz nem a prova”, compara.

Além dessas, diversas outras mudanças ocorreram ao longo do período. De 2010 até 2020, eram necessárias cinco aulas noturnas no processo de formação. Entre 2014 e 2017 os candidatos também precisavam realizar ao menos duas aulas em rodovias. Já o simulador, que segue sendo obrigatório apenas no Rio Grande do Sul, vigorou no país de 2015 até 2019.

Atrasos em razão da pandemia

De acordo com o proprietário do centro de formação, antes da pandemia era possível tirar a CNH em até 60 dias. No entanto, em razão da demanda represada no período pandêmico, o prazo chega a ser três vezes maior. Segundo ele, o candidato que tiver disponibilidade de fazer aula em qualquer horário irá levar, no mínimo, seis meses. “Antes da pandemia nós atendíamos 72 provas de carro por semana. Durante a pandemia foi reduzindo e em algumas semanas tivemos apenas oito ou dez provas. Sem contar o fato que se chover a prova é cancelada”, relata.

Atualmente, 900 candidatos concluíram suas aulas e já estão aptos para realizarem o exame prático, sendo 468 só da categoria B, para carros. Quando levado em consideração os alunos que já estão em andamento, o número chega próximo das 1.500 pessoas em processo de habilitação.

“Se contarmos os 100 candidatos que estão aptos na categoria de caminhão, dentro da oferta normal de quatro alunos por semana, nós iríamos levar 25 semanas para terminar o processo destas pessoas. Então, só nos que já estão prontos para fazer a prova nós levaríamos quatro meses. Sem contar os outros 70 que estão fazendo aula. Provavelmente até o final de 2022 nós não vamos terminar de atender todo mundo”, projeta.

A projeção leva em conta que os motoristas sejam aprovados já na primeira prova. No entanto, esta é a realidade de apenas 40 a 50% dos condutores. Já na segunda tentativa, aproximadamente metade dos reprovados conseguem a CNH. Mas, conforme lembra Machry, alguns ainda precisam de mais tempo para alcançarem os requisitos de aprovação. No CFC, alunos que iniciaram o processo em 2018 ainda estão pendentes.

“Normalmente, dentro de um ano, 90% dos candidatos terminam o seu processo de habilitação em períodos normais. Como agora estamos em sistema pandêmico, o prazo para terminar a primeira habilitação está indeterminado. Ele é atrelado a validade do exame médico, que é de cinco anos”, conclui.

Texto: Artur Dullius
reporter@indpendente.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui