Relacionamento conjugal: a companhia do outro é capaz de significar uma grande bênção na vida de uma pessoa, mas também pode ser potencialmente destruidora

Confira o comentário de Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica


0
Foto: Divulgação / Netflix

“Maid” é uma minissérie de televisão americana de comédia dramática, lançada em outubro na Netflix, e que vem tendo grande audiência. Inspirada no livro de Stephanie Land, cujo título, se traduzido para o português, chama-se “Superação: Trabalho Duro, Salário Baixo e o Dever de Uma Mãe Solo”. Stephanie, a autora do livro, ficou grávida quando estava num relacionamento de quatro meses. Desde que anunciou a gestação, passou a ser vítima de abusos psicológicos. Fica com esse companheiro agressivo até que a filha completa nove meses. Ela consegue sair de casa, indo inicialmente para um abrigo do governo. A partir de então, uma nova luta começa.


ouça o comentário 


 

Na obra, a autora conta que foi morar num bairro pobre e, para pagar as contas, trabalhou como faxineira, sem férias ou folgas. Rotina puxada, encontrar um lugar para deixar a filha enquanto ia para o trabalho, lidar com as questões judicias em relação à guarda da menina, e assim por diante. Um dos pontos que chama a atenção é que a protagonista não consegue reconhecer, com clareza, que está num relacionamento abusivo, destruidor. E essa é uma situação muito comum em relacionamentos de tal ordem. A companhia do outro pode ser a grande bênção na vida de uma pessoa, ou potencialmente destruidora. E nem é preciso falar de abusos psicológicos de maior proporção, a gente pode ferir o outro e causar danos psíquicos em atitudes cotidianas das quais, por vezes, a gente nem se dá conta. Nesse sentido, a escritora Lya Luft tem um poema que é uma prece.

“Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que, se eu faço uma bobagem, o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que, se estou numa fase ruim, o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ”Olha que estou tendo muita paciência com você!

Que, quando, sem querer, eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha, nem faça eu me sentir ridícula.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso. Que, finalmente, o outro entenda que, mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa, uma mulher.”

(fragmentos do poema “Canção das Mulheres”, de Lya Luft, escritora gaúcha, nascida em Santa Cruz do Sul)

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui