Renúncia de comandantes das Forças Armadas e trocas em ministérios causam apreensão em Brasília

Presidente quer demonstrar força em seu momento de maior fragilidade, e no Planalto, Centrão entra no núcleo duro do governo. Acompanhe a análise do assessor parlamentar Douglas Sandri


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General Edson Pujol (Exército), almirante Ilques Barbosa (Marinha) e brigadeiro Antônio Carlos Moretti Bermudez (Aeronáutica)

A renúncia dos três comandantes militares do Exército, Marinha e Aeronáutica, e a mudança em seis ministérios nesta semana, causam apreensão sobre os rumos que o governo Bolsonaro tomará a partir de agora. A semana iniciou com a pressão pela queda do ministro Ernesto Araújo do Itamaray. O chanceler não resistiu após entrar em embate direto com o Senado na questão da participação da China no 5G. Em seu lugar entra um embaixador que ascendeu ao topo da carreira agora, Carlos Alberto Fraco França. A diplomacia e bons relacionamentos com parceiros comerciais é de grande importância, especialmente neste momento, para a importação de insumos destinados à produção de vacinas contra a Covid-19.


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O governo vive seu momento de maior fragilidade, e também por isso, o presidente quer demostrar força, e cobra alinhamento de seus subordinados. Esse pedido de demostrações públicas gerou a maior crise no meio militar em décadas. A saída do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa levou a um movimento inédito de renúncia coletiva do general Edson Pujol (Exército), do almirante Ilques Barbosa (Marinha) e do brigadeiro Antônio Carlos Moretti Bermudez (Aeronáutica). É marcante neste episódio a frase usada pelo general Fernando em sua despedida: “Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituições de Estado”. Agora resta saber como se comportará o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, que foi deslocado da Casa Civil para o posto. O Exército terá participação maior na vida política agora? Fica a questão.

Por outro lado, no Planalto, cresce o poder e a influência do Centrão. O grupo político entra pela primeira vez no núcleo duro do governo com a nova ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda (PL-DF). Novata na política, ela é esposa do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa (pego na Operação Caixa de Pandora, o Mensalão do DEM, Arruda foi o primeiro governador preso no mandato).

Flávia tem ótima interlocução com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Na semana passada, o deputado fez um discurso cheio de mensagens nas entrelinhas; disse que uma “espiral de erros” no combate à pandemia poderia gerar remédios “fatais” no Congresso, falas que aumentaram rumores de risco de impeachment.

André Mendonça sai do Ministério da Justiça e volta para a AGU (Foto: Divulgação)

AGU e STF

Outra troca de cadeiras que não foi tão debatida, mas tem grande impacto no meio jurídico é a saída do advogado-geral da União (AGU), José Levi. Ele se recusou a assinar algumas peças em defesa do governo, como quando Bolsonaro questionou medidas restritivas contra a Covid dos governadores do RS, da Bahia e do Distrito Federal. Em seu lugar, volta André Mendonça, que estava no Ministério da Justiça. Mendonça é cotadíssimo para ser o próximo indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF). É o “terrivelmente evangélico” citado por Bolsonaro. Ele pode entrar no lugar do ministro Marco Aurélio Mello, que se aposenta em julho da corte.

Mourão toma vacina da Coronavac

Na segunda-feira (29), o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, foi vacinado contra o coronavírus. O general fez questão de postar no Twitter que, “como cidadão consciente”, recebeu a primeira dose da vacina Coronavac. “Espero que, em breve, o maior número possível de vacinas chegue à população brasileira”, destacou. A mensagem causou burburinhos em setores internos do governo, por uma suposta indireta à linha que o presidente defende. Mas, publicamente, é importante que autoridades façam gestos de incentivo à vacinação como medida de saúde pública.

Douglas Sandri, graduado em Engenharia Elétrica, é assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. Todas as terças-feiras, participa do quadro “Direto de Brasília”.

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