Resistir e afiar

De onde brotaria a bravura, a resistência do povo sulino?


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Ivete Kist (Foto: Fernanda Kochhann)

Durante todo esse trágico período de enchentes no Rio Grande do Sul, temos visto muitas manifestações no sentido de incentivar a resistência dos gaúchos. Nossos líderes falam isso e a mesma coisa nós dizemos uns para os outros. Essas falas positivas encontram receptividade, porque combinam com a tradição que herdamos. Estamos acostumados a pensar que podemos suportar a adversidade sem nos abatermos demasiadamente. Desenvolvemos certo orgulho de não ceder ao desânimo. Sentimo-nos, até certo ponto, indomáveis. Quer dizer, não nos deixamos domar, nem amansar. Permaneceremos combativos. É a ideia resumida na frase “não tá morto quem peleia”.

Os brasileiros de outros estados mostram muita admiração por este espírito indomável. Muitos perguntam de onde vem tanta gana. Pois é! De onde brotaria a bravura, a resistência do povo sulino?

Ao que se diz, o comportamento gaúcho tem raízes históricas. Desde meados do século XVIII, foi preciso enfrentar brigas de fronteira com os espanhóis para garantir a posse da propriedade. Espanhóis e portugueses se engalfinharam em contendas para demarcar os limites das terras pertencentes a uns e outros, aqui no sul do mundo. Houve sucessivos tratados assinados entre os governos de ambos os países. Em torno de mesas de negociação, na Europa, se desenhava e redesenhava o mapa da América do Sul. Fazer discussões e mudar a cartografia não era a coisa mais difícil. Difícil era levar para o plano da realidade as negociações. Para que as fronteiras se estabelecessem de fato houve muita luta. Quem ia para a guerra eram os moradores daqui, não os diplomatas.

Vem de longe, portanto, uma certa prontidão para a briga. Nunca foi possível quedar-se sossegado em face dos vizinhos belicosos. O inimigo morava perto e podia atacar a qualquer hora.

Outra justificativa para este espírito de luta que caracteriza o sul do Brasil tem a ver com a imigração europeia do século XIX. Milhares de pessoas vieram para o Novo Mundo fugindo da pobreza. Suportaram a travessia do Oceano animados pela esperança de encontrar aqui uma vida melhor. Ao chegar descobriam que tinham de cavar à unha essa vida melhor. Não haveria ninguém por eles. As promessas feitas para atraí-los, em geral, não se cumpriam e voltar não figurava entre os planos. Então, a alternativa era lutar, resistir quanto fosse necessário. Chorar, fazer corpo mole não ajudaria em nada.

Pensando a esse respeito hoje, percebe-se que há chance de acrescentar itens à nossa bravura. Podemos agregar mais saber ao processo de reconstrução em que estamos envolvidos agora. Encontrar soluções melhores do que aquelas que tínhamos antes. Dá para qualificar nossa obstinação, reunindo e comparando ideias, antes de sair fazendo.
O Presidente Abraão Lincoln disse certa vez que, se tivesse seis horas para cortar uma árvore, passaria as primeiras quatro horas afiando o machado.

Não está aí um modo interessante de pensar?

Texto por Ivete Kist, professora e escritora

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