Ressuscitar falhas passadas pode ser desmotivador para quem está diante de um caminho de recuperação

Muitas vezes, a pessoa já corrigiu sua conduta, mas ainda é lembrada do seu erro.


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O Método Kominsky é estrelado por Michael Dougas (Foto: Divulgação)

“Método Kominsky”, seriado da Netflix, aborda dilemas e questões comuns a pessoas que passam dos 60 anos de idade, muito embora, aos 53, eu me reconheci em vários momentos. Os personagens centrais são Sandy Kominsky (interpretado Michael Douglas), um professor de teatro respeitado em Hollywood, e Norman Newlander (Alan Arkin), seu melhor amigo, um empresário de sucesso na área do entretenimento.


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Sandy e Norman tentam lidar com a morte de entes queridos, viuvez, novos relacionamentos amorosos, limitações físicas e o aparecimento de doenças. Mas, o que quero destacar é o caso da Phoebe, filha de Norman. Ela é dependente química, já fora internada oito vezes. Com alta da clínica, precisa do apoio do pai para se reerguer. Contudo, Norman é resistente em relação a apostar na recuperação da filha. Ela tenta se aproximar do pai, mas ele sempre relembra seus fracassos. Não saber como agir é um dos maiores problemas ao lidar com o dependente químico, por mais instruída que a pessoa seja, como era a situação de Norman. Por conta disso, é fundamental buscar informação, ajuda profissional e conhecer grupos de apoio.

Assisti a série até o final com a esperança de que Norman fosse acolher a sua filha. Ele até ensaiou alguns movimentos, porém, ao mesmo tempo, nas conversas com Phoebe, sempre resgatava o que ela fez de pior na vida, deixando-a triste e desanimada.

Acontece que é muito difícil seguir se o outro sempre pontua nossos desacertos. Isso vale para as mais diversas situações da vida. Se ficamos, seguidamente, atualizando a pessoa das suas falhas do passado, não permitimos que ela se perdoe e caminhe adiante. Se o seu filho cometeu uma falha, você deve adverti-lo. É sua obrigação fazer isso. Mas, se você ficar o tempo todo jogando na cara, lembrando que ele errou, ele poderá ficar desmotivado para a mudança. Muitas vezes, a pessoa já corrigiu sua conduta, mas ainda é lembrada do seu erro. Isso vale muito para a vida a dois, quando estiver com o seu companheiro ou companheira, num momento alegre por exemplo, não é hora de lembrar antigas desavenças. Porque se assim o fizer, vai ressuscitar discussões e estragar o prazer do convívio.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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