Reuniões e aulas virtuais são mais cansativas quando não há muita troca

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing,.


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Foto: Pixabay / Ilustrativa

Minha filha tem aula online. Acompanha as atividades pelo computador que fica no quarto. Passa o dia nesse espaço, intercalando horas em frente à tela, com passeios pela casa, preparos de café e brincadeiras com os bichos de estimação. Sei que em boa parte das aulas, não liga a câmera e que muitos colegas também não o fazem. Entro no quarto e vejo o professor escrevendo equações matemáticas no quadro. Ele fala como se estivesse num auditório. Quero dizer que a dedicação não diminuiu diante dos poucos rostos que enxerga na tela. O restante da turma, ele presume que esteja participando também.


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No quarto ao lado, ouço meu esposo chamando os alunos, um a um, para se despedir no final de mais uma aula. Conta depois que poucos mostraram seus rostos. Timidez, cansaço, distrações paralelas. Os motivos são variados. Tenho a impressão de que as atividades virtuais instituem um novo formato de presença, tanto na sala de aula, quanto nas reuniões virtuais corporativas e institucionais. Você sinaliza que está na reunião e, em momento seguinte, pode desligar a câmera. Enquanto a pauta se desenvolve, você lê seus e-mails, digita no whatsapp, pode até sair de carro e permanecer na chamada, acompanhando as discussões que estão em andamento. Talvez o filósofo polonês Zygmunt Bauman, falecido em 2017, já previa isso quando dizia que ao contrário das relações reais, nas relações virtuais é fácil de entrar e sair. As relações virtuais parecem inteligentes e claras, parecem fáceis de usar, quando comparadas com as pesadas, lentas e bagunçadas coisas reais.

O formato de encontro virtual agiliza processos, encurta distâncias e traz uma infinidade de benefícios. No entanto, nos mais diversos contextos, se não nos vigiarmos, corremos o risco de sermos e de contarmos com presenças sem rostos. Diante de uma plateia invisível, o interlocutor nem ao menos recebe um “sim” feito com a cabeça para confirmar que está sendo ouvido.

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