Sealand, a plataforma de guerra que virou o ‘menor país do mundo’

Localizado no Mar do Norte, o Principado de Sealand enfrentou piratas e resiste há décadas sobre uma antiga plataforma marítima na costa inglesa.


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Sealand foi fundada como um principado soberano em águas internacionais em 1967 (Foto: ROBERT HARDING/ALAMY via BBC)

Esta história começa com um e-mail que eu nunca vou esquecer.

Numa manhã de primavera no final de maio, o príncipe Michael de Sealand, líder de uma micronação chamada Principado de Sealand, me enviou uma mensagem com cinco palavras bem claras: “Você pode falar comigo”.

Foi um prólogo particularmente curto para uma história quase inacreditável que me levaria a uma jornada por reinos de monarcas autoproclamados, reivindicações territoriais, anomalias históricas e grandes guerras.

E, por mais improvável que pareça, pela história de estações de rádio piratas e pesca de mariscos.

Outro dado importante sobre essa troca é que me ela me empolgou. Eu nunca tinha recebido um e-mail de um príncipe antes e era improvável que acontecesse novamente.

Terra do Mar

Claro, eu conhecia a história de Sealand (ou terra do mar, em tradução livre) – um minúsculo principado na costa inglesa de Suffolk que afirma ser o menor país do mundo. A micronação, na verdade uma solitária plataforma de defesa antiaérea da Segunda Guerra Mundial, foi erguida em 1942 como HM Fort Roughs, nome dado ao forte marítimo armado situado fora do então limite territorial da Grã-Bretanha no Mar do Norte.

Depois de reunir até 300 membros da Marinha Real no auge da guerra e ser completamente evacuado após 1956, o posto de armas foi abandonado e ficou em ruínas.

Foi assim até 1966, quando um ex-major do Exército britânico ocupou o espaço, dando origem a uma nação minúscula.

Hoje, o território permanece a 12 km da costa inglesa e é visível apenas de barco. A vista não é nada especial: uma plataforma de aparência semidestruída com um punhado de estruturas semelhantes a contêineres no topo. Para desembarcar, é preciso ser içado por um guindaste em meio a ventos fortes e muitas ondas.

Mas havia muito mais que eu não sabia.

Histórias sobre ataques de helicópteros ao amanhecer, por exemplo. Outras sobre gângsters e uma tentativa de golpe por obscuros empresários europeus. Ou mesmo uma revelação de um documento que perdeu o status de secreto do governo do Reino Unido descrevendo a fronteira como uma “Cuba ao largo da costa leste da Inglaterra”.

Tudo parecia o enredo de um filme nascido da caneta de um roteirista de Hollywood: da determinação de uma família trabalhadora de Essex que transformou este posto avançado em uma micronação à concretização de um sonho.

Aqui, neste local solitário no Mar do Norte, eles conquistaram a liberdade e fizeram reinar a excentricidade britânica — com toda a sua pompa e ostentação.

‘Não esperamos nada’

Quatro dias depois do e-mail, o príncipe Michael de Sealand atendeu minha ligação. O líder da micronação estava munido de histórias fascinantes, muitas dos quais aparecem em seu livro de memórias. Ele estava pronto para divulgar a história de Sealand, que em grande parte permanece desconhecida pelo resto do mundo.

“Eu tinha só 14 anos quando vim para cá pela primeira vez em minhas férias escolares de verão para ajudar meu pai. Eu achava aquela seria apenas uma aventura de seis semanas”, afirmou, falando de sua casa principal, um bangalô na costa de Essex.
“Certamente não pensei que seria uma história que se prolongaria por mais de 50 anos. Foi uma criação estranha, pois às vezes ficávamos meses a fio esperando o barco trazer suprimentos do continente. Eu olhava para o horizonte e tudo que eu conseguia ver desde a manhã até a noite era o Mar do Norte.”

Essa nostalgia não deve ofuscar as complexidades geopolíticas que contestam a existência de Sealand. Nenhum país do mundo reconhece formalmente Sealand.

O Príncipe Michael, por sua vez, diz que a micronação nunca pediu reconhecimento.

“Também não esperamos nada”, disse ele, sem rodeios. “Lembre-se que a plataforma foi construída ilegalmente fora das águas territoriais britânicas durante um tempo de guerra – mas todos estavam ocupados demais para se importar com isso. Os britânicos deveriam tê-la destruído quando eles tiveram chance, mas nunca chegaram a tal. Hoje, décadas depois, Sealand ainda está aqui.”

Comunidade de micronações

Em virtude de seu tamanho — apenas 0,004 km² no caso de Sealand — as micronações exigem que uma redefinição em nosso senso de escala.

Mas o que atrai as pessoas a criarem seus próprios países? Para George Dunford, coautor de um guia sobre “nações feitas em casa” (Micronations: The Lonely Planet Guide to Home-Made Nations), trata-se de uma combinação entre insatisfação com governos e vontade de “querer fazer as coisas à sua maneira”.

“Sealand é um caso especial porque se safou por muito tempo e conseguiu evitar o cumprimento das leis”, disse Dunford.

“Nos Estados Unidos, a família seria vista como dissidente, mas o Reino Unido era um lugar mais tolerante na década de 1960 – e os burocratas provavelmente pensaram que seria mais problemático do que positivo atacar o problema. Eles fizeram algumas tentativas e houve empreitadas de resgate, mas o território sobreviveu. Sealand é um verdadeiro sobrevivente da comunidade de micronações.”

Como regra, a maioria das micronações teve seu reconhecimento legal em 1933, quando a Convenção de Montevidéu sobre os Direitos e Deveres dos Estados foi assinada por líderes internacionais, incluindo o então presidente dos Estados Unidos, Franklin D Roosevelt. Nela, a legislação estabelece quatro critérios principais para a condição de Estado.

“A Convenção de Montevidéu é comumente usada para definir uma micronação, que requer uma população, território, governo e relações com outros Estados”, explicou Dunford.
“É o último que torna as micronações mais eufóricas, porque elas muitas vezes tentam fazer com que outros Estados as reconheçam. Sealand, por sua vez, evita isso dizendo que é um Estado soberano com seu próprio governante.”

Fonte: G1

 

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