Sete meses depois: morador de Lajeado fala sobre dor e superação em perder os pais e a irmã para covid-19

César Daniel de Vergas (35) também contraiu a doença e precisou ir para UTI, mas conseguiu se recuperar. Quando saiu do hospital, perdeu seus familiares em seis dias


1
Na foto da família, Daniel tem a lembrança dos pais e da irmã (Foto: Gabriela Hautrive)

Ainda dói falar e a emoção toma conta, já que ficaram apenas as fotos e lembranças na memória como recordações. Por muitas vezes, ainda dá vontade de ligar e ir visitar os pais, mas infelizmente, não é possível, e é preciso buscar forças nos filhos e nos familiares que ficaram para seguir em frente. Assim tem sido a vida de Cesar Daniel de Vargas, de 35 anos, que perdeu em março de 2021 seus pais: Neli de Vargas (75) e Sirlei Terezinha de Vargas (70), além da irmã, Débora Inês de Vargas (48), para a covid-19, por conta da variante P.1 do coronavírus que teve origem em Manaus.


ouça a reportagem

 


Sete meses depois do ocorrido, o morador de Lajeado, que desde os 13 anos residiu em Cruzeiro do Sul, cidade natal de sua mãe e avós, conta como foi passar pela doença, ter que ficar internado por 21 dias, sendo cinco deles na UTI, perdido 16 kg e necessitar de fisioterapia e outros tratamentos para se recuperar.

Como se não bastasse todo o sofrimento para superar a doença, Dani, como é conhecido, precisou tirar forças de onde não tinha para enfrentar a perda dos pais e da irmã, sendo que os óbitos ocorreram entre seus últimos dias no Hospital Bruno Born (HBB) e a alta na casa hospitalar. Em seis dias, ele perdeu as pessoas mais próximas, restando apenas sua outra irmã, Graziela Cristina de Vargas (42), que também contraiu a doença, ganhou bebê nesse meio tempo e conseguiu se recuperar.

Hoje, Cesar Daniel de Vargas tenta entender o que aconteceu e dar andamento à vida. “É muito difícil ainda falar a respeito de tudo o que aconteceu, porque foi tão trágico a ponto de tu não poder se despedir de ninguém”, relata. Emocionado, Vargas conta que procura rezar para seus familiares. “Pedir a Deus para que aonde eles estejam, que cuidem de mim e da minha irmã que ficou, é difícil de falar”.

Ele foi o primeiro da família a sentir os sintomas da doença, após uma visita ao pai que havia sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e estava internado no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre. “Então, nós da família decidimos nos reunir e fazer uma visita a ele no hospital, mas era quando o Rio Grande do Sul havia recebido o pessoal de Manaus, com essa variante grave, e realmente o hospital estava um caos, mas fomos e fizemos a visita ao meu pai”, conta.

Depois disso, todos retornam para casa, inclusive seu pai, que quando recebe alta testa negativo para o coronavírus. “Só que quem traz o vírus somos nós, pois a gente vem do hospital e começa a sentir os sintomas, eu e minha irmã que faleceu fomos os primeiros, e no decorrer dos dias, a gente só foi piorando”, relata. Quando é internado, Dani sabe apenas que uma de suas irmãs tinha ido para o hospital fazer oxigênio porque não se sentia muito bem e depois disso, perdeu o contato com todos, pois precisou ir para UTI. “Eu só volto a ter contato com eles com a notícia de que estão todos hospitalizados e eu já tinha perdido a minha mãe”. Depois disso, foi uma trágica sequência de falecimentos na família. “Minha mãe dia 11 de março, meu pai dia 15 de março e minha irmã em 17 de março.”

Um dos últimos registros de toda a família junta (Foto: Arquivo pessoal)

“A gente luta pelas crianças, pelos nossos filhos”

A força para superar a dor, Vargas busca através de seus filhos, Marina de 9 anos, Enzo de 2, a namorada Rita, e junto de sua irmã Graziela Cristina de Vargas (42), que também passou pela doença durante a gravidez, tendo que ganhar o bebê de parto normal. “A gente luta, na verdade, pelas crianças, pelos nossos filhos. Passar para eles como eram os avós, como era a família. Eu e a Grazi nos aproximamos ainda mais, a gente procura estar sempre juntos nos finais de semana.”

Graziela reside em Charqueadas, na região metropolitana de Porto Alegre, ao lado da casa onde moravam seus pais. Já a outra irmã de Vargas, que acabou falecendo, morava em Balneário Camboriú, Santa Catarina, e tinha uma vida saudável com práticas de corrida diariamente. Além disso, seus pais também não tinham problemas de saúde, apenas tomavam medicação para regular a pressão. Ele também faz um alerta quanto a gravidade da doença. “É uma doença silenciosa e vem sem aviso, ela realmente é muito grave, só realmente quem teve, como nós tivemos, entende.”

Diariamente, o profissional que trabalha como caminhoneiro, convive com a dor da perda. Toma medicação para ansiedade, já que a noite tem dificuldade para dormir. Além disso, evita assistir vídeos da família porque ainda sente muito. Por alguns momentos, sente vontade de ligar e visitar os pais, conta que chega a pegar o celular na mão e olhar as fotos no WhatsApp com o desejo de encontrá-los novamente.

Cesar Daniel de Vargas trabalha como caminhoneiro (Foto: Gabriela Hautrive)

Números da covid-19

Até a manhã desta segunda-feira (25) o Brasil contabilizava um total de 606 mil mortes em decorrência do coronavírus. Já no Rio Grande do Sul, o número é de 35.328 mil. Conforme a Secretaria Estadual de Saúde, a região do Vale do Taquari chegou a um total de 48.838 casos registrados da doença. Destes, 47.704 são considerados recuperados (97,6%), além de 263 (0,5%) casos ativos.

A taxa de letalidade é de 1,8%, com 871 óbitos reconhecidos pelo Estado. Os números são de acordo com atualização feita neste domingo (24).

Texto: Gabriela Hautrive
reportagem@independente.com.br

1 comentário

  1. Que Deus conforte o coração dele. Realmente não era só uma gripepesinha conforme afirmou bolsonaro.

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui