STF deu motivos para indignação popular; instituições devem voltar aos temas do dia a dia do brasileiro

No mundo real, a retórica política apenas não serve para resolver os problemas de um mercado tenso, com bolsa de valores em queda e dólar em alta.


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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Embora não seja possível precisar ao certo o público presente, o grande volume das manifestações neste 7 de setembro, em apoio ao presidente e contra o STF, demonstram força política de Bolsonaro. A possibilidade de autogolpe, que os críticos do governo temiam, não se confirmou. Por outro lado, o tom pesado das falas do presidente contra o Supremo e especialmente dirigidas ao ministro Alexandre de Moraes elevam a animosidade entre os poderes da República, a ponto de reforçar o coro por um impeachment do mandatário. Partidos mais ao centro, como PSD, PSDB e MDB, acenam com essa tese.

Mas, na Câmara, devem esbarrar no presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL). E mesmo que as direções partidárias indiquem, os parlamentares com base eleitoral mais à direita devem ficar receosos de irem por esse caminho para não entrar em conflito com o público simpático ao presidente e seu governo.


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Além do apoio a Bolsonaro, a fotografia das manifestações demostra que as pessoas foram movidas às ruas por uma indignação generalizada contra as ações da Suprema Corte. A insatisfação com o Judiciário não vem de agora, somente com o inquérito das fake news, conduzido por Moraes. O sentimento vem de antes, alimentado por um histórico de decisões do STF que decepcionam uma grande parcela da população brasileira.

Foram os ministros que decretaram o fim da prisão em segunda instância, movimento que freou o combate à corrupção no país. Alinhada a uma ala implicada do Congresso, a Corte também tem sua culpa no ocaso da Lava Jato ao anular processos, coroando com a recolocação de Lula como ator político para o cenário eleitoral em 2022.

Engenheiro, presidente do IFL Brasília e assessor parlamentar, Douglas Sandri analisa os fatos políticos de Brasília na programação da Rádio Independente (Foto: Divulgação)

É de se entender os motivos da rejeição ao Supremo por uma expressiva parte do país, fator que é utilizado bolsonarismo, que estava mais disperso e em baixa em função da condução política, econômica e da crise da covid-19 por parte do presidente. Tanta gente, principalmente em Brasília e na Avenida Paulista, em São Paulo, dá um gás a Bolsonaro. De olho na sucessão eleitoral do ano que vem, o governo utiliza os arroubos autoritários do Supremo no inquérito das fake news para catapultar as suas teses e sair das cordas.

Com esses componentes todos, o que não se pode fazer é descartar o movimento como “antidemocrático” ou “bolsonarista” por si só, sem entender o que está por trás dele, os sentimentos que move um espectro cativo do eleitorado. Foi nesse erro que incorreu parte da mídia, da opinião pública e da classe política nas manifestações de 2015. Naquela oportunidade, Bolsonaro entendeu.

Essa compreensão é importante como um farol para tentar captar a direção que o país tomará e antecipar os próximos capítulos da política brasileira. De minha parte, acredito que o presidente deveria baixar o tom da animosidade e usar o capital político que as ruas emprestam a ele para concentrar esforços em reformas políticas e ações executivas que busquem conter a escalada da inflação e o preço dos combustíveis, bem como melhorar o ambiente interno da economia, valorizando a moeda brasileira frente ao dólar. No mundo real, a retórica política apenas não serve para resolver os problemas de um mercado tenso, com bolsa de valores em queda e dólar em alta.

É nesse lapso do governo que a chamada “terceira via” tentará estabelecer a sua agenda e alavancar suas projeções. O presidente pode cometer um pecado capital, com potencial de comprometer suas chances de reeleição, se continuar a investir contra os demais poderes e abandonar os cuidados do dia a dia que um governo deve ter — aqueles que interferem diretamente na vida da população, matérias que ela leva em conta na hora de depositar o voto nas urnas: segurança, emprego, saúde, educação, infraestrutura e um ambiente econômico que possibilite o crescimento e o desenvolvimento social.

Por Douglas Sandri, engenheiro, presidente do Instituto de Formação de Líderes de Brasília e assessor parlamentar

 

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