Sudão do Sul completa 10 anos de independência; história do país é marcada por guerras e crises devastadoras

Após anos de conflitos, que levaram milhares de pessoas a deixarem suas casas, lados políticos do país chegaram a um acordo. Porém, confrontos e tensões ainda preocupam a ONU


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População do Sudão do Sul em um centro da ONU para proteção de civis, em foto de 2018 (Foto: Albert Gonzalez Farran/MSF)

O Sudão do Sul completa 10 anos de independência nesta sexta-feira (9), após se tornar o 193º país reconhecido mundialmente. O presidente Salva Kiir prometeu em discurso não levar novamente à guerra um país já mergulhado na violência e em uma grave crise humanitária.

“Garanto que não os colocarei na guerra novamente. Vamos todos trabalhar juntos para nos recuperar da última década e recolocar nosso país no caminho do desenvolvimento”, disse Kiir em um discurso em inglês.

O presidente também saudou o novo espírito de diálogo entre os lados políticos e colocou economia e segurança como suas prioridades.

Em dezembro de 2013, o Sudão do Sul mergulhou em uma guerra civil que, em cinco anos, causou mais de 380 mil mortes, cerca de quatro milhões de deslocados — um terço da população.

Em setembro de 2018, um acordo de paz foi oficialmente assinado entre Salva Kiir e seu rival Riek Machar, que agora governam o país como presidente e vice-presidente, respectivamente.

Obstáculos à paz

Dez anos após sua independência, a situação no Sudão do Sul piorou: altos índices de violência, uma crise econômica com inflação galopante e os maiores níveis de insegurança alimentar e desnutrição desde a independência, segundo a ONU.

Cerca de 60% da população sofre de insegurança alimentar, incluindo 108 mil pessoas em risco de fome, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA).

A fragilidade das instituições, a corrupção e a miséria fizeram disparar a violência entre etnias e o crime em muitas regiões que escapam à autoridade do Estado.

O acordo de 2018 previa uma série de medidas para evitar uma nova guerra, mas muitas delas não foram implementadas.

“O país ainda enfrenta inúmeros obstáculos para uma paz duradoura, como a ausência de uma força de segurança unificada, a insegurança ligada a conflitos entre comunidades e a criminalidade oportunista”, comentou a missão da ONU no Sudão do Sul (UNMISS) em um comunicado.
A missão pediu aos líderes que “aproveitem esta oportunidade para transformar as esperanças e sonhos de dez anos atrás em realidade”.

Segundo a ONU, mais de 80% das vítimas civis registradas em 2021 sofreram violência entre comunidades, ou atos de milícias.

Os armazéns de ajuda humanitária e as equipes humanitárias também são alvo de violência: sete trabalhadores humanitários foram mortos este ano no país.

Discurso e corrida

Em seu discurso, Salva Kiir insistiu nos avanços obtidos, embora tenha dito estar “perfeitamente ciente de que temos muito que fazer para alcançar a segurança total no país”.

Embora a formação de um Exército unificado mal tenha avançado, o presidente indicou que 53 mil membros das forças de segurança estão “prontos para se formar”.

Sinal do desencanto generalizado, o país não comemora oficialmente sua independência desde 2014. Agora, em 2021, as autoridades determinaram que fosse celebrada em privado, oficialmente devido à pandemia da covid-19.

Além do discurso presidencial, o único evento público foi uma corrida de 10 quilômetros em Juba, a “Grande Corrida do Sudão do Sul”.

Estava agendado o juramento dos deputados do Parlamento “reconstituído”, cuja composição foi anunciada em maio. A cerimônia foi adiado, sem qualquer explicação por parte das autoridades políticas.

Segundo uma composição negociada entre os signatários do acordo de 2018, esta “reconstituição” do Parlamento é uma das medidas tomadas para se evitar uma nova guerra.

Em uma mensagem aos líderes do país, o papa Francisco encorajou-os a fazer mais para que seus cidadãos possam “gozar plenamente dos frutos da independência”.

“Seu povo continua a viver com medo e incerteza”, lamentou.

Fonte: G1

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