Talibã no poder: quais são os primeiros sinais de que mulheres podem enfrentar um retrocesso

Há relatos de incidentes em áreas que foram dominadas pelo grupo insurgente nas últimas semanas. Porta-voz do Talibã afirmou que os direitos das mulheres serão respeitados


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Imagem sem data publicada em rede social mostra uma fachada de loja sendo repintada (Foto: Reprodução/Twitter/Lotfullah Najafizada)

Horas após o Talibã tomar o poder em Cabul, a capital do Afeganistão, algumas imagens de publicidade com fotos de mulheres começaram a ser retiradas das fachadas das lojas.

No domingo (15), fotógrafos da agência Kyodo fizeram imagens de painéis com fotos sendo retirados, aparentemente, por pessoas que não são membros do grupo insurgente. Em redes sociais foram publicadas imagens semelhantes, mas sem indicação do local ou da data.

O Talibã tomou Cabul e voltou ao poder no Afeganistão no domingo, 20 anos depois de terem sido destituídos por uma coalizão militar internacional. O presidente fugiu do país, e o palácio presidencial foi tomado pelos combatentes do grupo extremista.

Antes disso, o Talibã já tinha controlado quase todo o território.

A maioria (cerca de 80%) das pessoas do Afeganistão que tiveram que deixar suas casas por causa do avanço do Talibã é de mulheres e crianças, de acordo com a agência para refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Há medo que o Talibã volte a impor leis baseadas na interpretação que o grupo faz do islamismo, pela qual mulheres quase não têm direitos.

O grupo fundamentalista governou o país durante cinco anos, até 2001, quando a coalizão liderada pelos Estados Unidos tirou os extremistas do poder.

Nos anos que antecederam a invasão pela coalizão, as meninas não podiam estudar, as mulheres não podiam trabalhar e nem mesmo sair de casa se não estivessem acompanhadas de um parente.

O governo do Talibã também promovia apedrejamento de mulheres acusadas de adultério.

Além dessas regras relativas a mulheres, os talibãs também faziam execuções públicas e, como medida de punição, cortavam as mãos de quem eles diziam ser ladrões.

Nos 20 anos desde que o Talibã esteve fora do poder, houve avanços nos direitos das mulheres, ainda que a sociedade afegã seja conservadora em relação a essa pauta. As meninas entraram nas escolas, e há mulheres no Parlamento, no governo e em empresas.

O avanço nas áreas urbanas foi significativo, afirma Marianne O’Grady, vice-diretora da organização Care Internacional. Ela diz que mesmo com a volta do Talibã ao poder, a situação anterior a 2001 não vai se verificar: “Não é possível ‘deseducar’ milhões de pessoas, e se as mulheres agora estão atrás das paredes e não podem mais sair tanto, elas ainda podem dar aulas aos parentes e vizinhos e filhos, o que não acontecia há 25 anos”.

Mesmo assim, há relatos a respeito de uma sensação de perda de direitos entre algumas mulheres.

Ainda não há relatos de que as regras do Talibã para mulheres já voltaram a ser implementadas nas regiões que o grupo tomou desde maio deste ano. A agência Associated Press afirma que pessoas que fugiram dessas áreas contaram que alguns militantes tomaram casas e que botaram fogo em uma escola.

Algumas das famílias que foram a Cabul na semana passada, antes da invasão da capital, disseram que, nas regiões que os insurgentes já tinham dominado, no norte do país, já havia alguns episódios que podem ser indicativos do que acontecerá com as mulheres. Em uma cidade, militantes gritaram com mulheres que usavam “sandálias muito reveladoras”. Um professor disse que as mulheres foram proibidas de ir ao mercado sem um homem para acompanhá-las.

Talibã diz que vai proteger direitos das mulheres

O Talibã diz que quer uma transição de poder pacífica nos próximos dias, disse o porta-voz da organização, Suhail Shaheen.

Ele também afirmou que o grupo insurgente vai proteger os direitos de mulheres, assim como a liberdade para os profissionais de mídia e diplomatas.

Em uma entrevista à rede BBC, ele afirmou que eles garantem, especialmente aos moradores de Cabul, que suas propriedades e suas vidas estão seguras.

Fonte: G1

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