Técnico em Processos Fotográficos da Univates amplia a visibilidade de mulheres trans da região

O curso, por meio de trabalho de estudante, realizou ensaio de moda com três mulheres transsexuais


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Foto: Divulgação

A estudante lajeadense Maíssa Trombini, do curso técnico em Processos Fotográficos da Univates, realizou, no último fim de semana, um ensaio fotográfico com mulheres transsexuais que comporá um editorial de moda para a marca de roupas La Salida. A locação foi o Cactário Horst, em Imigrante. Além da parceria com a marca de roupas e para a locação, outra estudante do técnico em Comunicação Visual, Maria Eduarda Thomé Fauri, auxiliou com a maquiagem das modelos.

No ensaio, participam as modelos Dandara Lima Cardoso, Fernanda Cardoso e Paula Emanuelle Cavalheiro. Estimativas extraoficiais indicam que até 50 pessoas trans residem no Vale do Taquari, a maioria em Lajeado.

No trabalho, idealizado com a parceria do curso, a estudante Maíssa aborda a fotografia como uma ferramenta para a diminuição do preconceito e a promoção da igualdade para as pessoas trans. Maíssa relata que encara a fotografia como uma expressão artística. “E acho que toda arte leva a alguma reflexão. Trabalho numa empresa de moda e vejo como a ascensão de corpos de mulheres negras, gordas e trans é muito recente e ainda carrega muito preconceito de quem olha e quem consome a moda”, observa.

A estudante acredita que a moda deve ser espaço para uma expressão individual democratizada, seja para mulheres cisgêneras ou mulheres transsexuais. “Quero que esse cenário seja cada vez mais normal e comum”. A reflexão de que a moda é para todas, não apenas para mulheres magras, cisgêneras e brancas, é o componente principal do trabalho proposto pela jovem.

As atividades foram acompanhadas pela professora Elise Bozzetto, coordenadora dos cursos de Processos Fotográficos e Comunicação Visual da Univates. “O Brasil, pelo 13° ano consecutivo, é o país que mais mata trans. A expectativa de vida nacional é de 76 anos e a expectativa de vida das pessoas trans é de apenas 35 anos. É nessa sociedade que estamos. Apesar dos dados alarmantes, da pauta necessária e urgente, a moda ainda segue branca, magra e cisgênera”, observa Elise.

“Como mulher, fico imensamente feliz com este trabalho da Maíssa. A mulher trans não ocupa os espaços que poderia ocupar por não ter visibilidade e representatividade, na moda inclusive. Todas nós mulheres merecemos respeito, oportunidades e espaço. Eu sonho com uma sociedade mais justa, mais plural, que vê na diversidade a beleza da vida. Como mulher, o que posso fazer para isso acontecer é tocar o coração de cada aluno que passa pelo curso para eles serem, no futuro, as pessoas que permitem aos outros florescer. Então, apoiar e promover projetos como esse está no DNA de nossos cursos”, comenta a coordenadora.

A escolha do Cactário Horst também tem um simbolismo para o trabalho, conforme explica Maíssa. “O cacto resiste num ambiente hostil e consegue ter flores até no meio dos espinhos”, observa a estudante, traçando um paralelo entre o ambiente escolhido para a realização das fotos com a realidade difícil que confronta a maior parte da população trans no Brasil.

Dandara Lima Cardoso

Uma das modelos do ensaio é a estrelense Dandara Lima Cardoso, que já participou de outras iniciativas promovidas por estudantes da Univates. “Eu me sinto honrada por participar. A minha expectativa para esse ensaio era grande, por este ser um ensaio em lugar aberto. Dandara saúda como muito positiva a iniciativa de Maíssa. “Dar mais visibilidade às pessoas trans é uma boa maneira de promover a igualdade entre as pessoas, e diminuir o preconceito e o estigma sobre a população trans”, assegura.

A participação na iniciativa permitiu à Dandara lembrar da própria trajetória de vida. “Quando criança, eu olhava muitas revistas com lindas mulheres: de salto, brincos, colares, lindas roupas. Eu tinha uma enorme vontade de ser uma delas. Mas então lembrava: eu sou um menino, nunca poderei ocupar esse espaço. E não entendia por que eu tinha vontade de ser menina”, lembra. “Na época eu não conseguia me expressar ou entender os meus sentimentos. Hoje, após percorrer um caminho tão cheio de preconceito e principalmente de autossuperação, assumi meu gênero (o que de fato eu sou e nasci), meu corpo, assumi um novo nome que me representa”, afirma.

Hoje Dandara diz que consegue se olhar no espelho e dizer: “Eu sou assim e eu me amo desse jeito”. “E, ao ver toda esta produção: roupas, maquiagem, fotos, carinho e atenção, retornei ao passado, às minhas lembranças e desejos de infância: vendo aquelas revistas de moda. Hoje eu ganhei esse presente graças a uma equipe maravilhosa. Hoje eu pude ser uma daquelas mulheres das revistas que eu tanto admirava”, comemora.

Outras possibilidades

O trabalho realizado por Maíssa irá além da universidade. Para o dia 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans, uma exposição presencial com o material está sendo programada para abordar o tema. Espaços que queiram receber a exposição podem realizar contato pelo e-mail elise@univates.br.elise@univates.br. As imagens também comporão publicações nas redes sociais dos Cursos Técnicos da Univates. Além disso, o curso está organizando uma exposição virtual com as imagens que estará disponível em breve.

“Vou disponibilizar as fotos para La Salida, para serem utilizadas no Instagram da marca. A La Salida está ampliando o espaço da loja da marca e, quando conheceu as meninas, também propôs uma futura roda de conversa. Na nova loja haverá um espaço destinado só para conscientização de causas como a das mulheres trans, e do público LGBTQIA+. As fotos também estarão em uma exposição futura na Univates”, explica a estudante. AI/VM

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