Tentar justificar reforça a questão racial, afirma Márcio Chagas sobre caso João Alberto

Em entrevista exclusiva à Rádio Independente, o ex-árbitro de futebol e ex-comentarista da RBS TV ainda fala sobre o racismo e preconceito vivenciados em sua carreira.


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Márcio Chagas (Foto: Divulgação)

O ex-árbitro de futebol e ex-comentarista da RBS TV Márcio Chagas da Silva participou do quadro Sem Preconceito do programa Panorama desta sexta-feira (27). Vítima de repetidos episódios de racismo, em campo e fora dele, se tornou uma figura proeminente na luta contra o preconceito racial.

Ele comenta o caso João Alberto, criticando as tentativas da sociedade procurar fatos que expliquem a reação dos seguranças. “Quando a gente tenta buscar alguma justificativa, a gente continua reforçando a questão racial para tentar justificar que isso seja normal. Aquilo não é normal. Aquilo não aconteceria com uma pessoa não negra. Até quando vai acontecer esse tipo de situação? [..] Vai continuar acontecendo enquanto a gente não levar em consideração e tornar este assunto público. Um assunto de interesse do país inteiro, do mundo inteiro.”


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Para Chagas o caso de João Alberto só foi divulgado e teve a “potência da notícia”, porque foi filmado. “Aquilo acontece diariamente, sem ter câmeras que filmem as situações”, reforça.

Segundo o ex-árbitro, apesar de atualmente a luta contra o racismo ser mais enfatizada e ter mais potência, a sociedade ainda engatinha quanto a igualdade racial no Brasil. “Temos as redes sociais que ajudam a debater o assunto. Temos as rádios em que hoje conseguimos falar. Acredito que há 30, 40 anos atrás não tínhamos este debate tão aberto quanto às questões raciais. O fato de conversar com a comunidade quando vou nos clubes, faz com que tenhamos esta aproximação e tenhamos um olhar mais humano desta situação. Mas acho que a gente ainda engatinha muito com esta questão da igualdade racial no nosso país.”

Ele afirma que o cenário poderia ser “muito melhor” se o debate e o apoio a esta causa não fosse só de um segmento. “Não é uma luta de negros contra brancos. É uma luta de negros e brancos.”

Em 2014, o comentarista foi alvo de um episódio de racismo, quando encontrou bananas no seu carro, após uma partida no Estádio Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Após o caso, ele deixou os gramados. No entanto, durante sua carreira, Chagas foi vítima de racismo inúmeras vezes. No início, quando começou a apitar o Campeonato Gaúcho da 1ª Divisão de 2004, a Comissão de Arbitragem colocou em cheque sua condição de preencher uma súmula. “Em Bento foi a gota d’água.”

Após deixar os gramados, Chagas atuou como comentarista esportivo da RBS TV, profissão onde também sofreu diversas injúrias raciais. Em abril deste ano, foi desligado da emissora. Ele teria sido interpelado pela chefia por conceder entrevistas a outros veículos de imprensa sobre ofensas recebidas durante jornadas. Na época, a RBS negou que o desligamento tenha sido por este motivo e disse repudiar e denunciar atos preconceituosos.

Chagas denunciou diversas vezes os casos de racismo que sofreu. Neste sentido, enfatiza que as pessoas precisam denunciar para frear o racismo estrutural.

Texto: Rodrigo Gallas
web@independente.com.br

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