Ter compaixão com aquele que falhou conosco é uma virtude grandiosa

"Acredito que a pessoa ensina muito mais quando acolhe do que quando pune com olhares, palavras e xingamentos", opina a psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Ilustrativa

Estava caminhando na beira do mar com minha família quando, de repente, minha filha me reprendeu. Eu havia pisoteado um castelinho de areia que uma menina estava construindo. Na hora, a criança voltava do mar com seu baldinho cheio de água. Desconcertada, pedi desculpas. Não sei se ela fez fisionomia de decepção quando viu sua construção desmanchada, mas, assim que falei com ela, abriu um largo sorriso e, acredito que, para me consolar, falou: “Não faz mal, eu estava mesmo querendo desmanchar ele”, o castelinho de areia.


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Fiquei depois pensando que, quantas vezes, por distração com algo de nosso interesse, fazemos vistas grossas para os esforços das outras pessoas. Talvez estão dando o melhor de si num projeto, num trabalho e, por estarmos distraídos com as nossas demandas, avaliamos somente o resultado final. Não acompanhamos o processo, e, assim, podemos ser injustos nas nossas apreciações.

Quantas vezes, pisamos no castelinho de areia de alguém através de palavras desmotivadoras que pronunciamos. Pode ocorrer de agirmos assim com a intenção de avisar a pessoa para que não se meta numa enrascada, para que avalie melhor os riscos, para que se prepare para possíveis imprevistos. No caso, trata-se de um comportamento de cuidado em relação ao outro. Contudo, a nossa fala pode ser fundamentada por sentimentos e comportamentos nenhum um pouco nobres, como a inveja, a mania de ser do contra, ou mesmo agindo como um “estraga prazeres”.

A cena que relatei aponta para uma outra reflexão. Vejam só: a menina estava se empenhando na construção do castelinho, devia ter um enredo na cabeça, talvez desejasse reproduzir algo que viu num filme, ou num livro. O projeto deu errado por uma fatalidade, pelo descuido de outra pessoa. Quando enxergou o estrago, poderia ter chorado, chamado a mãe, ou mesmo ter sido áspera comigo, porém, soube ser generosa diante do meu atrapalho. Compreendeu que eu também estava chateada, talvez até mais do que ela. Essa atitude de conceder o perdão, de procurar amenizar a culpa do outro quando ele errou, sem intenção de nos prejudicar, deveríamos ter na vida adulta.

Lamentavelmente, diferente da reação da menina, acusamos e somos acusados com muita facilidade. Qualquer pisada em falso, ganha proporções gigantescas, com sentenças das mais diversas ordens.

Acredito que a pessoa ensina muito mais quando acolhe do que quando pune com olhares, palavras e xingamentos. O sorriso doce daquela menina, que não devia ter mais do que cinco anos, levarei comigo quando estiver caminhando na areia. Servirá como alerta de que devo olhar onde piso para não desmanchar castelinhos em construção.

Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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