Todos temos traços de imodéstia em relação à forma como somos vistos pelos outros

Confira o comentário de Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica


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Foto: Ilustrativa / Divulgação

Quando leio questionários que entrevis­tam celebridades e que perguntam em qual situação vale a pena mentir, tenho vontade de responder pela pessoa que a mentira se justifica sempre quando al­guém solicita um parecer acerca da sua aparência. Vale a pena mentir se a verdade, ou pelo menos o que você pensa de fato, seria capaz de magoar a outra pes­soa. Porque a vaidade em relação à estética, à forma como nós nos mostramos para os outros, está presente no mais humilde dos humanos. Do peão ao patrão. Foi o que constatei outro dia.

Aquele minúsculo espelho não combinava com o ambiente. Coberto de pó, estava afixado na parede e parecia não fazer parte das ferramentas de trabalho. Qual se­ria a função do espelho? Um dos trabalhadores explicou que, assim que terminam o expediente do dia, lavam o rosto e se olham. Imagine a cena: todos os operários formando uma gigantesca fila, esperando para dar uma espiada na imagem. Parecia uma procissão religiosa em que as pessoas caminham solenemente esperando a sua vez de tocar na imagem de um santo. Seria uma neces­sidade de reconhecimento? Um voltar-se a si mesmo depois de ser mais um em meio a uma centena de operários onde todos se parecem, vestindo macacões iguais, com a cabeça coberta por capacetes brancos?

Seria uma questão de retomar a singularidade, ou teriam aqueles homens sobrevivido à uniformização da vida humana, e conseguido guardar no seu interior o sentimento da vaidade? No fundo, eu torcia por isso. Era um sinal de que havia vida pulsando naqueles rostos empoeirados que o espelho refletia. Devem ser muitas as respostas. Em menor ou maior grau, todos ostentamos alguma imodéstia. Já argumentava o filósofo alemão Max Weber que a vai­dade é um traço comum e, talvez, não haja pessoa al­guma que dela esteja totalmente isenta. Ainda bem, com frequência, é o que pode nos salvar nesta vida.

 

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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