“Tradicionalmente, a mulher está associada com características que a diminuem”

A professora Ivete Kist estreou nesta quarta-feira (9) seu comentário semanal na Rádio Independente; leia e ouça a análise


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Professora Ivete Kist realiza comentário no programa Acorda Rio Grande (Foto: Rodrigo Gallas)

Fazer auê em torno de datas não combina muito comigo. Mas abro exceção para o dia 8 de março. É que promover a igualdade entre homens e mulheres tem uma relevância extraordinária. A sociedade toda se beneficia. Não se trata apenas de fazer justiça para com as mulheres. Todos ganham com a igualdade dos gêneros.

Se você não enxerga desigualdade entre homens e mulheres, nem deve se admirar. A situação está tão assimilada que é bem fácil de não ver nada mesmo. Há séculos somos alimentados com histórias e com imagens que desfavorecem a mulher, de modo que, entender que a mulher é menos, parece bem natural.

Tradicionalmente, a mulher está associada com características que a diminuem. Entre essas, é possível destacar: a dificuldade para usar a cabeça; o descontrole emocional; a sedução para o pecado.

 

É possível ver isso em algumas histórias. Na fábula da cigarra e da formiga, por exemplo. Ela se tornou popular na Europa, a partir da versão assinada por La Fontaine e publicada em 1668. Para destacar o valor do trabalho, a narrativa utiliza duas figuras femininas de péssimo comportamento. A formiga faz lembrar a mulher que vive à beira de um ataque de nervos, aquela que se descontrola facilmente. É por isso que fecha a porta para a cigarra que vinha pedir abrigo no meio do inverno rigoroso. A cigarra, por sua vez, personifica a mulher avoada, aquela que vive desligada da realidade a ponto de esquecer que é preciso fazer economia e pensar no futuro.

Outro exemplo. Existe uma antiga lenda gaúcha, a lenda da Salamanca do Jarau. A Salamanca é uma mulher disfarçada de lagartixa, que seduz os padres na sacristia e os leva a cometer loucuras (mesmo contra a vontade deles).

Nem é preciso acrescentar a este quadro a figura da madrasta e da bruxa, que entram para o imaginário das crianças desde os seus primeiros anos de vida. Acho que os exemplos são suficientes para compreender as consequências. Segundo a ONU, dois terços das crianças que estão fora da escola são meninas; já entre os pobres, 6 de cada dez, são mulheres.

O que fazer para promover a igualdade?

Primeiro, evoluir na certeza de que homens e mulheres têm igual dignidade e merecem iguais oportunidades.

Depois, facilitar o acesso de todas as mulheres à educação.

Terceiro, aumentar o chamado empoderamento feminino. Todas as mulheres precisam ir aumentando a certeza do próprio valor. Nós temos de aprender a não esperar que alguém nos dê regalias. A igualdade deve ser conquistada por nós. Porque, se alguém pode dar igualdade, também pode retirar na hora em que quiser.

As mulheres precisam ir avançando pouco a pouco na responsabilidade pela sua plena realização.

A escritora Lya Luft disse uma vez: “criar não está limitado aos artistas: cada um de nós cria a sua hora e a sua honra, seu dia e sua existência”.

Por Ivete Kist, professora

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