Três anos do desaparecimento de Jacir Potrich: “A saudade é muito grande e as vezes bate a revolta”, diz esposa do ex-bancário

Ex-gerente do Sicredi de Anta Gorda foi visto pela última vez em 2018. Advogado reforça que dentista e amigo da família não tem envolvimento no caso. Promotor acredita que “não há crime perfeito”


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 Jacir Potrich (e) ao lado da esposa Adriane, nora Samara e o filho Vinícius (Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação)

Neste sábado, dia 13 de novembro de 2021, completam-se três anos do desaparecimento do gerente do Sicredi de Anta Gorda, Jacir Potrich, que na época tinha 55 anos, e ainda não há um desfecho para o caso. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) encerrou em maio de 2020 a ação contra o vizinho do desaparecido, Carlos Alberto Weber Patussi. O dentista foi acusado de estar envolvido no sumiço do bancário, que desapareceu no dia 13 de novembro de 2018 e até hoje nunca foi encontrado.

Patussi chegou a ser preso duas vezes sob a acusação de matar e ocultar o corpo. Para marcar os três anos do fato, a reportagem da Rádio Independente conversou com algumas pessoas envolvidas no caso, entre elas, o advogado de Patussi, Dr. Paulo Olímpio Gomes de Souza; o promotor de Justiça da Comarca de Encantado na época, André Prediger, que agora atua em Taquari, e com a esposa do ex-bancário, Adriane Balestreri Potrich.


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A esposa, de 56 anos, conta que atualmente já está bem mais conformada e tranquila com a situação, apesar da saudade e da espera por respostas. “Como nós somos católicos e temos uma espiritualidade muito elevada, acreditamos que estamos aqui de passagem”, informa. Desta forma, entende que Potrich já completou seu ciclo na terra: “Eu acredito que ele esteja em um plano elevado agora”. Junto da família, a empresária busca forças para seguir em frente. “Nós, meu filho Vinícius e minha nora, Samara, a gente tem se apoiado muito. Nós temos momentos de tristeza, a saudade é muito grande e as vezes bate a revolta, mas a gente costuma se poiar um no outro e vamos vivendo a nossa vida”, relata.

Jacir Potrich (55) está desaparecido há três anos e ainda não há um desfecho para o caso (Foto:Divulgação)

Adriane acredita que um dia a história tenha um desfecho. “Não é possível que aconteça da gente não saber que fim levou o Jacir”, comenta. Ela reforça que a justiça dos homens será feita desde que os “homens” colaborem com isso. “Eu falo em forma de apelo, que se alguém souber de alguma coisa, se alguém lembrar de algum detalhe, mesmo que já façam três anos, que por favor entrem em contato com a família, entrem em contato com a polícia, não precisa nem ser em Anta Gorda, que vá em uma delegacia mais próxima”, pede. A esposa do ex-bancário também diz acreditar muito na justiça divina. “Quem fez isso com Jacir não vai ficar impune, não pode ter a consciência tranquila, e como existe o ditado: aqui se faz, aqui se paga, então mais cedo ou mais tarde a consciência irá pesar”, pondera. Ela cita que em algum momento um fato novo poderá aparecer para que a polícia dê andamento no caso.


“Enorme injustiça porque não havia nenhum vestígio”

Advogado de Patussi, Paulo Olímpio Gomes de Souza (Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação)

O advogado de Carlos Alberto Weber Patussi, Dr. Paulo Olímpio Gomes de Souza, entende que o caso afetou drasticamente a família de Potrich e continua afetando, pois até o momento não há uma explicação quanto ao desaparecimento e a causa dele. Por outro lado, diz que também, gerou problemas ao dentista, acusado em um primeiro momento como responsável pelo crime. “Esse fato foi uma enorme injustiça porque não havia nenhum vestígio, nenhuma prova contra Carlos Patussi que induzisse ou levasse a ideia de que ele tivesse sido a causa pelo desaparecimento de Jacir Potrich”, relata.


ENTREVISTA COM ADVOGADO DE PATUSSI


 

Conforme Souza, as provas apresentadas pela polícia e pelo Instituto Geral de Perícias não mostraram a participação de Patussi. “Não há nenhum vestígio, nunca houve, de qualquer participação de Carlos ao desaparecimento de Jacir, e isso foi sanado magistralmente pelo Tribunal de Justiça do Estado”, reforça. O advogado também fala sobre o caso ter afetado a vida do dentista. “O sofrimento dele e de sua família, isto ficou, foi tão traumático que ainda produz efeitos e consequências e no seu estado de espírito, são duas famílias que sofrem”. Logo depois do encerramento da acusação, Patussi retomou com suas atividades e atendimentos.


“Não acredito em crime perfeito”

Promotor de Justiça da Comarca de Encantado na época do desaparecimento, André Prediger (Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação)

O promotor de Justiça da Comarca de Encantado na época, André Prediger, que agora atua em Taquari, informou que foram produzidas provas contra o réu com o entendimento de que seriam suficientes para levar o caso à juri, salientando que inclusive houve prisão, e que por isso segue acreditando na justiça. “Não existe crime perfeito, pode ter sido muito bem executado, pode ter sido planejado, levado a risca, realmente temos até hoje o desaparecimento completo dos restos mortais da vítima, mas, como eu disso, não acredito em crime perfeito”.

Segundo Prediger, há exemplos de casos semelhantes no Rio Grande do Sul, que mesmo depois de muito tempo, foram concluídos. “Quando menos se esperava surge a prova cabal e o crime é elucidado. De modo que, por não acreditar em crime perfeito, acreditar na justiça, nós temos uma pena alta aqui que trata-se de homicídio qualificado, por tanto o prazo prescricional também é alto”, explica. O promotor reforça que o caso um dia será desvendado como forma de resposta para sociedade, mas principalmente para a família. “A quem durante muito tempo eu atendi na promotoria de Encantado, conversei muito, e todos nós da área do direito, todos profissionais que trabalharam nesse caso, devem uma respostas, e ela virá”, finaliza.


Relembre o caso

Carlos Alberto Weber Patussi foi acusado por envolvido no sumiço do bancário (Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação)

O dentista, Carlos Patussi, amigo e vizinho da família, havia sido acusado de ter matado o gerente estrangulado dentro do quiosque de sua casa e escondido o corpo. Algumas imagens mostravam ele mexendo nas câmeras de segurança do condomínio e caminhando sobre o telhado da casa. O vizinho afirmou, no entanto, que estava limpando os equipamentos. Potrich sumiu do residencial onde morava entre o final da tarde e início da noite do dia 13 de novembro de 2018. As câmeras de segurança flagraram ele pela última vez quando se dirigia ao quiosque do condomínio, logo após uma pescaria. Os peixes foram limpos e guardados na geladeira. Buscas foram feitas na propriedade e a família chegou a oferecer uma recompensa de R$ 50 mil por informações sobre o paradeiro do bancário, no entanto, nenhum pedido de resgate foi feito.

Depoimento do acusado na época

A polícia de Anta Gorda ouviu no dia 21 de fevereiro o depoimento de quem era visto como suspeito de envolvimento na morte e ocultação de cadáver de Potrich. Sob o comando do Delegado de Polícia Márcio Marodin, o processo de oitivas durou mais de três horas. O dentista, que foi preso em janeiro em Capão da Canoa e liberado do Presídio de Encantado mediante habeas corpus uma semana depois, chegou ao local por volta das 10h, acompanhado de três advogados. De acordo com o delegado, ele seguia negando o crime, salientando que não esteve com a vitima no dia do seu desaparecimento, esclarecendo o que teria feito naquela noite e no dia seguinte, quando soube do caso. Marodin destacou que a linha de investigação seguia na mesma pessoa, tendo em vista os indícios existentes naquele momento.

Delegado deixa o cargo

Delegado, ao centro, em coletiva de imprensa na data da prisão do suspeito no caso do desaparecimento do gerente do Sicredi (Foto: Artur Dullius / Arquivo Rádio Independente)

O delegado regional da 24ª Região Policial, com sede em Soledade, Guilherme Pacífico, que cuidava do caso, deixou o cargo. Ele assumiu a função de subsecretário de Integração Institucional da Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo, no sudeste do país, seu Estado de origem. A Delegacia Regional de Soledade passou a ser comandada interinamente, a partir do dia 31 de janeiro de 2019, pelo delegado Márcio Marodin. De acordo com o Pacífico, o convite para voltar à terra natal partiu do titular da secretaria capixaba, Roberto Sá, e a decisão não tinha relação com o caso Potrich. Guilherme Pacífico coordenou as investigações sobre o desaparecimento do gerente em novembro de 2018.

STJ encerra ação

No dia 12 de maio de 2020, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a decisão de encerrar a ação contra o vizinho do desaparecido, Carlos Alberto Weber Patussi. O dentista era acusado de estar envolvido no sumiço do bancário, que desapareceu no dia 13 de novembro de 2018 e até hoje nunca foi encontrado. Em agosto de 2019 o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul suspendeu a ação por entender que não havia provas suficientes para manter o processo contra o dentista. No entanto, o Ministério Público do Rio Grande do Sul recorreu ao STJ, que acabou mantendo a decisão.

Texto: Gabriela Hautrive
reportagem@independente.com.br

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