Univates desenvolverá projeto de restauração da mata ciliar em municípios do Vale do Taquari

A expectativa é que Travesseiro, Marques de Souza, Lajeado, Encantado e Arroio do Meio recebam as intervenções


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Barra do Fão, no Rio Forqueta, em Travesseiro (Foto: Lucas Wend / Divulgação)

Em uma escala global, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) declarou o período 2021-2030 como a Década da ONU da Restauração de Ecossistemas. Com o intuito de construir conhecimento para a restauração ecológica dos ecossistemas regionais, um dos projetos da Univates estabelece uma ponte entre o marco da ONU e o Vale do Taquari por meio do uso de recursos provenientes dos passivos de Reposição Florestal Obrigatória (RFO) da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) do Rio Grande do Sul.

O projeto tem o objetivo de definir metodologias eficazes para a restauração da cobertura vegetal das margens de rios e arroios da região cuja vegetação encontra-se degradada ou ausente. Nesse caso, os recursos da RFO, aos quais a Univates teve acesso, são oriundos da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) (atualmente Grupo CEEE/Equatorial). São cerca de R$ 222,8 mil captados da CEEE para a execução do projeto. A Univates, como contrapartida, mantém a equipe de trabalho que vai executar a iniciativa por quatro anos, composta por três bolsistas de iniciação científica e pesquisadores que atuam no projeto.

A pesquisa é coordenada pela professora doutora Elisete Maria de Freitas e está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Sistemas Ambientais Sustentáveis (PPGSAS) da Univates. Estarão diretamente envolvidos a pesquisadora líder, dois mestrandos e três bolsistas de iniciação científica.

A expectativa é que Travesseiro, Marques de Souza, Lajeado, Encantado e Arroio do Meio recebam as intervenções. Às administrações municipais que trabalharem em conjunto com a Universidade caberá, por exemplo, o auxílio no transporte de mudas e materiais necessários para a implantação das metodologias. Parte das mudas a serem utilizadas está sendo produzida no campus da Univates, em Lajeado. As metodologias começam a ser implantadas neste mês, e o projeto encerra em 2024. Ao fim do trabalho, livros, cartilhas e produção científica estarão disponíveis à população, como uma forma de ampliar a pesquisa desenvolvida pela Universidade.

Rio Taquari em Encantado (Foto: Lucas Wend / Divulgação)

“Este é um projeto muito ousado”

A partir da aprovação do projeto de pesquisa, reflexão e planejamento para lidar com os fatores que compõem uma equação complexa passaram a ser o dia a dia da professora Elisete. O planejamento é essencial para que o trabalho tenha o sucesso esperado. A Univates já desenvolveu um projeto sobre matas ciliares entre 2012 e 2014, também coordenado pela docente, que é doutora em Botânica e trabalha com ecologia vegetal. “Naquela ocasião fizemos a caracterização da vegetação, ou seja, o reconhecimento das espécies que ocorrem nas margens do rio Taquari, em áreas preservadas e também degradadas. Quando terminamos esse trabalho, partimos para o arroio Forquetinha. Logo após, começamos a nos questionar sobre a estrutura das comunidades vegetais das matas ciliares do rio Forqueta”, explica a professora. “Inclusive, esta é uma das etapas que está em andamento nas margens do rio Forqueta e vai nos dar subsídios para a implantação das metodologias”, revela, unindo um projeto já existente ao novo trabalho.

Esses estudos e outros já realizados permitem que a equipe envolvida conheça a diversidade de espécies que compõem a flora das margens dos rios e arroios da região e possa definir quais espécies devem ser utilizadas para acelerar a restauração das áreas que se encontram degradadas. “Este é um projeto muito ousado”, observa a docente. “O que o diferencia de outras iniciativas é a abrangência do que é proposto, uma vez que, só em termos de mudas a serem plantadas, serão cerca de 4 mil inicialmente. Quando pensamos na estimativa de quantas mudas vamos precisar, o total assusta”, relata Elisete.

“A natureza nos dá todas as respostas. Ao longo do nosso percurso de pesquisa, reunimos muito conhecimento – sobre as espécies, suas particularidades, como estão distribuídas… Com base nessas informações é que vamos fazer o plantio e a semeadura, além da adoção de outras metodologias em estudo ou já aplicadas em outras regiões do Brasil e em outros países”, esclarece a docente. Serão utilizadas 12 áreas com cerca de 100 m x 30 m (3.000 m²), nas quais o processo todo será realizado e documentado cientificamente. “Vamos testar diferentes metodologias e verificar o que a gente pode e o que não pode fazer aqui. Existem diferentes formas de fazer, e o nosso objetivo é identificar o que é o melhor para o Vale do Taquari, conforme as características locais”, aponta a pesquisadora.

Barra do Fão, no Rio Forqueta, em Travesseiro (Foto: Lucas Wend / Divulgação)

Intervenção ou recuperação natural?

Deixar a natureza agir para restabelecer a cobertura vegetal das áreas degradadas não é suficiente, apontam as pesquisas e as observações empíricas da equipe coordenada pela professora Elisete. “Começamos a testar alguns modelos e percebemos que, se deixarmos a sucessão natural acontecer, as espécies invasoras ganham espaço e as nativas não prosperam”, explica a pesquisadora. Além disso, a janela de tempo de recuperação é muito maior.

Outro ponto que chama a atenção é a pouca densidade da vegetação nativa das margens, especialmente em rios menores, de forma que, em razão do estado de degradação da vegetação, existem poucas plantas que dispersam suas sementes nas áreas. Também, a ausência de floresta ao longo de grandes extensões das margens dificulta a dispersão das sementes por animais, como pássaros e mamíferos, por exemplo. Dessa forma, para a equipe de Elisete, estava claro que uma intervenção seria necessária, o que motivou os primeiros rascunhos do projeto submetido à análise da Sema em 2019.

Lei Federal Nº 12.651 de 2012

Em paralelo aos movimentos de pesquisa que a Universidade propõe, existe a Lei de Proteção da Vegetação Nativa (nº 12.651), de 2012, que exige que os proprietários restaurem áreas de cobertura vegetal de suas propriedades. “O projeto também vai envolver produtores rurais. Dessa forma, precisamos pensar em métodos de restauração que não sejam caros, já que, no longo prazo, os produtores terão que comprar mudas e manejá-las em suas propriedades”, esclarece a pesquisadora.

Para os estudos da Univates, algumas propriedades serão selecionadas nos municípios que receberem a intervenção. “Uma vez que a Lei terá aplicação geral e será fiscalizada, ao participar do estudo os proprietários estarão contribuindo para a pesquisa e terão as margens de rios de sua propriedade restauradas, totalmente sem custos. E ainda estarão em concordância com a Lei vigente quando iniciarem as exigências de restauração dessas áreas degradadas”, revela Elisete.

Desafios

A lista de desafios de um projeto abrangente como este é, da mesma forma, ampla. Dois exemplos são as cheias, que podem comprometer o trabalho, e a prevalência de espécies invasoras, que acrescenta uma etapa adicional ao estudo. “Se eu sei que podem acontecer inundações, terei que adotar estratégias que sejam eficientes para contornar essa situação”, antevê Elisete. Duas delas, por exemplo, são a semeadura, em substituição ao plantio de mudas, e o uso de espécies de diferentes hábitos nas margens dos rios.

“As sementes podem resistir às intempéries e até mesmo à correnteza”, comenta a pesquisadora. O grupo também selecionou plantas cujas mudas não sejam altas para dar o tempo de adaptação necessário às plantas no solo, de forma que enraízem e não sejam facilmente comprometidas caso aconteçam cheias nos rios e arroios, considerando que, neste momento em que o projeto vai iniciar, o período é crítico para a ocorrência de alterações no nível dos cursos d’água.

Outra das características das margens dos rios e arroios na região é que são cobertas por espécimes de plantas exóticas invasoras, por exemplo, a Morus nigra (amoreira), a Brachiaria ruziziensis (um tipo de gramínea), a Cynodon dactylon (encrenca-de-vizinho) e a Megathyrsus maximus (capim-mombaça), entre outras. “Essas plantas terão de ser removidas nas áreas em que testaremos as metodologias, de forma que não comprometam o que estaremos propondo”, informa a pesquisadora.

Transferência do conhecimento

Como produto do trabalho científico, o projeto prevê o contato com a população para a transferência do conhecimento gerado. “Teremos a elaboração de livros e manuais de instrução para serem entregues às pessoas que moram perto de rios e arroios orientando-as sobre como podem executar as metodologias que identificarmos como as mais assertivas para serem usadas aqui”, relata a professora. “Não queremos que este trabalho se restrinja às áreas nas quais vamos atuar, mas que toda a comunidade possa aproveitar esse conhecimento nas suas propriedades, da mesma forma que queremos que outros profissionais e prefeituras possam incentivar os proprietários de lotes a ampliar o que estamos propondo”, finaliza Elisete.

Detalhes da metodologia

As florestas ribeirinhas na bacia hidrográfica do rio Taquari encontram-se degradadas, o que causa danos econômicos e ambientais, exigindo a aplicação de medidas que auxiliem na reversão dessa situação.

Diante disso, o projeto tem como objetivo avaliar diferentes metodologias de restauração da cobertura vegetal de áreas degradadas a serem aplicadas nas margens de rios e arroios da bacia hidrográfica do rio Taquari, cujos processos erosivos estejam estabilizados, definindo-se os procedimentos mais adequados a serem adotados nesses ecossistemas na região do estudo.

Serão selecionadas nove áreas degradadas para aplicação, de forma associada, de diferentes métodos de restauração da cobertura vegetal, de forma a estabelecer quais são as alternativas mais eficientes.

Dispersão de sementes, nucleação com a introdução de mudas/sementes de espécies de diferentes hábitos e grupo sucessional, instalação de poleiros, associada à remoção de exóticas invasoras e sucessão natural são os métodos a serem adotados. Três áreas serão destinadas para sucessão natural e servirão como controle para a avaliação do sucesso das metodologias aplicadas nas outras áreas. As demais constituirão dois grupos, conforme semelhanças nas características ambientais e local de ocorrência, e em cada grupo será aplicado um mesmo conjunto de métodos.

Quando as metodologias forem escolhidas, os pesquisadores precisarão aplicá-las em três áreas para validar o esforço, e ao mesmo tempo devem existir outras três áreas de controle nas quais não serão realizadas intervenções.

A avaliação da sucessão vegetal, ocorrida com os métodos aplicados, será realizada a partir de levantamentos fitossociológicos anuais em cada uma das áreas. Além da aplicação das metodologias de restauração, em seis áreas também serão realizados estudos de banco de sementes do solo e de chuva de sementes. Espera-se que ocorra a restauração da cobertura vegetal nas áreas de aplicação das metodologias, sendo possível definir os métodos mais eficientes a serem aplicados nas margens de rios e arroios da região do estudo. AI/VM

 

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