Vivemos em busca de completude, mas é a falta que nos move

Sem desejo, nossas possibilidades se encolhem


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Foto: Ilustrativa

Nós nunca passamos por duas experiências da mesma forma, pois algo sempre muda, a cada instante. Sabemos disso, mas parece que estamos sempre tentando reviver algo lá do passado, e costumamos ser extremamente saudosistas ao falar dos “velhos tempos”.
Freud disse que jamais abrimos mão daquilo que um dia nos foi prazeroso. Se é assim, justifica-se essa busca que nunca se esgota. Procuramos experimentar de novo aquela sensação boa nas relações que estabelecemos com as pessoas, no consumo de bens materiais, nas viagens, na comida e na bebida.

O filósofo e escritor alemão Walter Benjamin tem um conto chamado Omelete de Amoras. É a história de um rei muito triste, que apesar de possuir muita riqueza, não se animava com nada. Certo dia, ele mandou chamar o cozinheiro da corte e disse:

“Olha, tem uma coisa que talvez possa me tirar dessa tristeza. Eu carrego uma lembrança da minha infância, de quando o reino foi invadido e meu pai e eu fugimos pela floresta escondidos. Chegamos em uma pequena casa, onde uma senhora nos acolheu, nos deu roupas secas e nos serviu uma omelete de amoras. Quando eu coloquei o primeiro bocado na boca, algo divino aconteceu: eu me senti protegido, consolado e feliz. Eu e meu pai nos alimentamos e foi aquele prato a coisa mais maravilhosa que eu já provei. Eu quero que você me faça essa omelete de amoras”, continuou o rei. “Se você conseguir, te darei muita riqueza, você pode me pedir o que quiser. Mas se o prato não ficar igual ao da minha infância, vou mandar que cortem a sua cabeça”.

Tamara Bischoff, jornalista e psicóloga

O cozinheiro, que ouviu a história com atenção, pensou por um instante e respondeu: “pois pode cortar minha cabeça imediatamente”. “Como assim?”, quis saber o rei.

“Você não sabe a receita?”. E o cozinheiro afirmou: “Eu sei exatamente a receita, os ingredientes e o modo de preparar. Mas na minha receita não vai ter aquilo que te consolou naquela noite, que te deu prazer e aconchego. Porque na minha receita falta a floresta escura, o frio, o medo e o desamparo que você sentia. Falta também a fome enorme que vocês experimentaram, assim como a felicidade de ser acolhido em uma casa pequena por uma pessoa bondosa. O que te falta para ser feliz, é a própria falta”.

Quem quiser interagir comigo, pode me procurar nas redes sociais. No Instagram, no @tamara.terapia, e no Facebook, na página Psicóloga Tamara Bischoff.

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