Vivências de qualidade com os filhos importam mais do que o número de horas disponíveis para eles

Confira o comentário de Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica


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Foto: Shutterstock/Reprodução

O que vou contar aconteceu quando eu devia estar com meus 13 anos de idade. Eu morava na cidade de Barra do Ribeiro. Era interna no colégio de freiras. Naquele ano, concluí a oitava série e meus colegas planejavam fazer uma viagem ao Rio de Janeiro. A passagem e o hotel seriam custeados com recursos obtidos de patrocinadores, contudo, cada aluno devia se virar com as despesas de alimentação. Animada com a ideia de conhecer a cidade maravilhosa, escrevi uma carta para meus pais falando da situação. Contei que teria muita vontade de ir, mas sabia da dificuldade porque não teria dinheiro.

Alguns dias depois, recebi a resposta, vinda de Rui Barbosa, Canudos do Vale. Até hoje consigo lembrar que, a folha onde a mãe escreveu, tinha sujeirinhas de farelos que deviam estar sobre a mesa. E que ela não deveria ter visto porque escrevia à noite, horário em que a claridade vinha de uma pequena lamparina à querosene. Com saudade de casa, fiquei por um bom tempo cheirando o papel manchado. No texto, a mãe opinava que seria possível fazer o passeio. Ela iria me ajudar com a comida. Num português mal formulado, escreveu que daria um jeito de enviar um vidro de melado e alguns pães de farinha branca. Confesso que senti um constrangimento antecipado. Fiquei me imaginando sentada num canto comendo meu pão. Em todo caso, isso não teria grande relevância diante do fato de eu ter conseguido fazer a excursão com o apoio da mãe.

Lembrei disso no último domingo enquanto conversava com minha amiga Estela Kaiser. Ela me contou que também saiu cedo de casa para ir atrás dos seus sonhos. Com 18 anos, morava num outro Estado, longe da família e dos amigos. A comunicação também acontecia por correspondências. O pai era quem enviava as notícias. O que mais chamava a atenção era o texto que aparecia na última linha: “PS: se precisar, volte!”. Uma frase encorajadora. Mesmo longe de casa, a filha podia contar com a proteção da família.

Minha amiga e eu ficamos refletindo sobre o significado desse “estar junto”. O fato é que não importa de que forma um pai consegue ajudar seu filho, o que conta mesmo é o filho saber que não está sozinho. E isso encherá ele de coragem para lidar com as adversidades que encontrar pela vida afora.

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