Você consegue enxergar novidades na sua rotina?

É preciso ver o novo no conhecido. Vale, inclusive, para relações com as pessoas do nosso convívio


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O V13 é o segundo viaduto férreo mais alto do mundo e o maior da América Latina (Foto: Nícolas Horn)

Meu esposo e eu estávamos naquele impasse que você já deve ter vivido. Domingo, um sol lindo lá fora que convidava para um passeio. Daqueles dias em que ficar dentro de casa seria um desaforo com a natureza. Se isso já estava certo, ainda era preciso decidir o destino. Sem nenhuma proposta clara, deixei que ele fizesse as suas sugestões.

– Viaduto 13, disse ele.

Eu nem deixei ele completar a fala e já fui avisando:

– Já fui lá, já vi, já conheço.

Ele ainda tentou argumentar que eu poderia visitar o local outra vez, quem sabe, veria detalhes que não havia reparado na visita anterior. Mas eu não dei ouvidos e segui olhando para a tela do celular. Algum site de turismo poderia ter uma sugestão melhor. A intenção era conhecer algo novo, um endereço que meus olhos nunca tivessem visto antes. Eu ia lendo uma por uma das atrações. Meu esposo estava quieto, talvez decepcionado com o insucesso da sua ideia. Por fim, depois de um bom tempo fazendo planos, acabamos nem saindo casa.

Fiquei depois pensando na necessidade que temos de ver o novo, de escutar o novo. Se alguém quer nos contar algo que já sabemos, cortamos logo a conversa. O psicanalista Jorge Forbes fala desse comportamento como sendo um sintoma dos dias atuais. Já vi, já sei, já conheço. Uma lógica social em que tudo é descartável depois que foi visto, ouvido ou observado pela primeira vez. Diz ele: “É fundamental manter viva a curiosidade que nos leva a retirar e perceber o singular, o detalhe, a diferença, mesmo frente a um mar de aparentes igualdades”.

É preciso ver o novo no conhecido. Vale, inclusive, para relações com as pessoas do nosso convívio, com nossos parceiros amorosos. O filósofo Heráclito, que viveu antes da era cristã, dizia que a natureza é composta por uma constante mudança. “Ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio homem já se modificou.”

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

 

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