Conheça o lado “escondido” de Dubai

Jornalista da Rádio Independente conhece região pobre de uma das cidades mais famosas e rica dos Emirados Árabes


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Prédios luxuosos, vistas impecáveis e segurança extrema. Essa é a impressão que Dubai passa para o restante do mundo. O que poucos sabem, e que espanta a quem conhece, é o lado de miséria e baixa qualidade de vida de uma região escondida da cidade dos Emirados Árabes Unidos. 

Moradias estilo Minha Casa Minha Vida, expõem roupas no varal (Foto: Ricardo Sander)

Chamada de Sonapur, a periferia de Dubai abriga os imigrantes da África, como Uganda e Quênia, e do sul da Ásia, especialmente Índia, Filipinas, Paquistão e Bangladesh, que trabalham e viajam a Dubai com a esperança de construir um futuro para as suas famílias. No dia livre da comitiva regional que está no país, o jornalista da Rádio Independente, Ricardo Sander conheceu no Jabel Ali Park, um dos maiores complexos industriais, que abriga trabalhadores de diferentes áreas como: construção, limpeza e segurança. 

Como em outras periferias, os acessos e solo não são pavimentados. Por estar localizado em um deserto, toda a superfície é constituída de areia, muito diferente das grandes vias asfaltadas da cidade. Além disso, é raro algum morador da região possuir um veículo. 

Contradição

O local é isolado, e de acordo com a experiência do jornalista, é muito difícil conseguir informações básicas como o número habitantes da região. Isso acontece pois as pessoas têm medo de falar e o governo e imprensa não divulgam este lado. 

Esgoto é coletado pelo cano do caminhão (Foto: Ricardo Sander)

Um taxista paquistanês, que trabalha na região e reside no país há  seis anos, estima que cerca de 20 a 30% da população de Dubai é residente de complexos industriais. Isso é contraditório ao referido por guias, que informam que a região representa apenas 5% da população.

O taxista relata que, oficialmente,  recebe um pagamento mensal de 800 Dirhams, que assina, mas o valor fica todo com a empresa, que tem a concessão do governo para prestar o serviço.  Sua renda mensal é de aproximadamente 1.000 Dirhams, o que consegue através dos 20% do valor das suas corridas.

O profissional, que não quer ser identificado e não deixou que fosse tirada sequer uma foto do seu braço por medo de perder o emprego e sofrer represálias, tem esposa e três filhos no Paquistão. Ele é formado em engenharia elétrica,  mas apesar de ter tentado inúmeras vezes, jamais conseguiu exercer sua profissão em Dubai. Ainda assim recebe mais do que na sua terra Natal exercendo sua profissão.

Poucos carros que existem no local ficam cobertos pela poeira da areia (Foto: Ricardo Sander)

Poucos direitos

Muitos trabalhadores perdem seus direitos assim que chegam nos Emirados Árabes Unidos por conta do confisco realizado ainda no aeroporto. Para continuar no país, estas pessoas são obrigadas a buscar trabalho, e recebem, em média, 800 Dirhams por mês, cerca de R$ 1.200.  

Mesmo passando por dificuldades e vivendo em uma realidade muito mais dura, grande parte da população de imigrantes gosta de viver na região. “Eu gosto de morar e trabalhar aqui. É melhor do que a economia e trabalho no meu país de origem. Ganho cerca de 1.200  Dirhams (R$ 1.800), mas estou trabalhando para ganhar mais”, relata um paquistanês, que trabalha em um mercado da região.

Ao ser questionado sobre qual seu sonho, o jovem de 20 anos que fala bem o inglês, diz que pretende garantir dinheiro o suficiente para viver em outro país. “Quero conseguir dinheiro suficiente para me mudar. Quero morar no Canadá, Alemanha, Suíça, ou algum outro lugar da Europa”, destacou. 

Moradias

A Rádio Independente obteve imagens exclusivas da parte interna de um dos conjuntos habitacionais. Em cada quarto residem quatro pessoas.Confira:

“Este é o tipo de reportagem que mais me empolga no jornalismo”

Repórter apura informações na periferia de Dubai

Após conhecer a realidade do povo, Ricardo Sander relata sobre sua experiência social e profissional vivida no país árabe. “Pra mim esta foi uma das, se não a experiência mais rica que eu tive aqui nos Emirados Árabes Unidos, pois a gente acaba conhecendo muito a questão da beleza, do desenvolvimento, que é fantástico, mas é importante a gente ver o todo, e nem tudo o que reluz é ouro. O que impacta é que apesar de viverem nessa situação, eles não sentem raiva nem rancor do Sheik. São pessoas muito boas, simples e que não pensam em fazer mal para ninguém. Eles fizeram questão de nos pagar o tradicional chá deles e quando eu pedi se poderíamos ajudar, comprando alguma coisa que eles precisassem no mercado, eles disseram que tinham vergonha e não aceitaram”, destacou o jornalista.

Em relação às conversas com pessoas no local, Sander conta que elas sentem medo de se expressar por conta de possíveis represálias. Ricardo ainda fala sobre a situação de vida no local. “Quando questionei se em algum momento ele havia passado fome, o taxista lacrimejou e disse que durante a pandemia, teve uns dois ou três dias que ele ficou comendo pão velho e que passou fome. Além disso, me contou que moram, entre oito pessoas, em um quarto de 2,5 por 3 m². Para que todos possam ocupar o mesmo ambiente, acabam se revezando em tudo, banho, refeição e camas”, relatou. 

Imigrantes de Bangladesh, de 27 e 40 anos, que trabalham na construção civil e não falam inglês (Foto: Ricardo Sander)

Além dele, Ricardo ainda entrevistou dois homens, que são naturais de Bangladesh. “Ambos não falam absolutamente nada em inglês. Um deles mora há 11 anos e não consegue se comunicar na língua. É visível que eles vivem muito em suas comunidades e não se misturam com os demais grupos. Além disso, me chamou a atenção o fato de pelo semblante, eles aparentarem ter uns dez anos a mais da realidade”, finalizou.

Um segurança paquistanês relata que, em três anos de profissão, jamais teve que apartar uma briga. Ele recebe cerca de 800 Dirham (1.200), mora com outras três pessoas e recebe moradia, alimentação e transporte da sua empresa.

Paquistanês trabalha há três anos como segurança (Foto: Ricardo Sander)

A cobertura da Missão Empresarial para a Expo 2020 Dubai na Rádio Independente tem o apoio de: Sollar Sul Energia Solar, Brincasa, Languiru, Smart Tecnologia em Comunicação e Kaimon Concessionária Kia e Mitsubishi.

Texto: Vinicius Mallmann, com informações de Ricardo Sander diretamente de Dubai
regional@independente.com.br


1 comentário

  1. Parabéns Ricardo Sander! Sabia que não te furtarias a um olhar realista e social em relação a população hipossuficiente que sobrevive em Dubai no regime ditatorial dos Emirados Árabes. Infelizmente, o contraste é ofuscado. Direitos humanos são violados. Os bastidores escondem o grito dos excluídos.

    Obs: Brasil não tá longe da mesma realidade.

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